Revendo nossa busca  (o uso da fotografia)
André Costa

Desde nossos primeiros empenhos para a definição de nosso objeto, nossa atenção voltava-se principalmente para um mapeamento do papel da instituição médica no acontecimento da gravidez por uma perspectiva da gestante. Pressupúnhamos que, aos profissionais pertencentes a estas instituições, seria por certo instrutivo acompanhar os caminhos pelos quais descobriríamos um contexto cultural mais amplo no qual se insere o evento da gravidez, onde o serviço de saúde desempenharia uma função pontual, talvez até muito menor do que o planejamento das práticas e procedimentos no atendimento estivesse por considerar.

Ora, este objeto ainda estava por se definir melhor.   O que procurávamos, na realidade, era entender o significado da gestação e do parto para estas gestantes residentes no Butantã. Como se relacionariam estas mulheres com a proximidade do parto, que preocupações as acometeriam, com que universo outro de informações elas estariam lidando no seu dia-a-dia  para os quais poderiam estar de olhos ainda cerrados os serviços de saúde?  Sempre entendemos, no entanto, que a gestante possui uma participação ativa neste processo, e ao colocá-la simplesmente como que inserida dentro de um contexto estruturante estaríamos deixando de considerar a gestante no seu papel fundamental de produtora destas informações, de doadora de sentido - que, afinal, é um dos papéis sociais e psicológicos da gestação - de criadora de representações que cercassem esta experiência da gravidez e do parto.

Das gestantes, por certo,  ficou que, apesar de buscarmos entender um pouco mais a realidade que as cercam, pretendíamos trazer à tona suas particulares produções de significações, suas hierarquizações: as individuais construções de territórios sígnicos nos quais se fixava o evento da gravidez, as estruturas deste infundíbulo que as conduziria ao "centro gravitacional do parto".

Alcançar estes processos é bem mais difícil do que parece à primeira vista.    De imediato, pensa-se em entrevistas onde,  através do discurso das gestantes, poderíamos pretender algum quadro novo.  Mas esta aproximação revelou que toda a argumentação advinda daria-se como impressões,   repetindo informações já dadas, muitas vezes exteriormente concebidas sem por conta disto corresponderem à ação, a sua relação real com o evento.  Assim, na busca deste objeto que custava a se definir com clareza, pois que ele sempre nos protelava sua aparição irretornável, surgiu a necessidade da escolha de um  método que não nos colocasse simplesmente à frente do discurso verbal.  A possibilidade de propor a estas gestantes a produção de  fotografias despontou-nos como uma opção sedutora, pois que: 1) permitiria-nos acreditar na facilidade de sua realização técnica - em qualquer classe social, o fotografar é já hoje uma conhecida atividade familiar; 2)daria-nos um retorno razoavelmente rápido dos resultados; 3) possibilitaria uma discussão no âmbito da imagem, uma identificação qualitativa que pudesse escapar às amarras verbais de argumentações ideais.

Mesmo quando usássemos as fotografias para fazer aparecer o discurso na sua apresentação e discussão, esta provocaçào imagética, pensávamos, seria de todo mais produtiva pois que revelaria e relevaria outras representações: uma produção imagética de sentido. Uma tentiva de colocar a gestante no centro ativo, na criação destas imagens...