| sobre
o parto |
 |
Frida Kahlo
Mi nacimiento ou Nacimiento (1932)
a expulsão do jardim de Éden
Ele disse à mulher: "Farei com que, na gravidez, tenhas grandes sofrimentos; é
com dor que hás de gerar filhos. Teu desejo te impelirá para o teu homem, e este te
dominará". (Gênesis, 3-16)
parto e sociedade
"O parto, à semelhança de muitos outros processos fisiológicos, nunca é
totalmente 'natural'. Tal como o comer, o beber, a excreção de produtos inúteis,
o movimento físico, as relações sexuais, a puberdade, a maturidade, a velhice e a morte
são culturalmente definidos, também o parto reflete valores sociais e varia de acordo
com a sociedade.
Durante o trabalho de parto uma mulher parece estar envolvida numa atividade puramente
fisiológica e, sob muitos aspectos, solitária. Se as coisas correm bem, sentirá
provavelmente que o que está a fazer é totalmente instintivo. Mas, embora possa ter o
filho completamente sozinha e sem ajuda, a sociedade expressa através dela os seus
valores sobre a gravidez e o parto, e a importância, riscos e significados deste
último."
"Também é social porque define a identidade da mulher de uma nova forma; agora
ela é mãe. Em sociedades muito segmentadas, como a Índia ou a África do Sul, ou em
qualquer país em que haja extremos de miséria e de riqueza, como a América Latina,
saber como o parto é conduzido em diferentes níveis socioeconômicos ou de casta pode
também revelar-nos muito sobre o estatuto das pessoas nele envolvidas, umas relativamente
às outras."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.85-6)
parto, corpo e magia |

|
Os índios Cuna do Panamá:
"Em casos de parto difícil, um shaman (curandeiro) intervém a pedido da
parteira, e canta para fazer o bebê sair do corpo da parturiente. A mulher está deitada
na rede e o shaman está de cócoras por baixo dela. A canção abre com uma
descrição do problema com que a parteira se defronta, do seu pedido ao shaman
para a ajudar e da entrada deste em cena. Continua com a descrição das coisas que fez na
cabana da mulher para preparar a canção-drama: fumigações com sementes de cacau
queimadas, orações e escultura de figuras sagradas em madeira. Toda a canção
representa uma procura, com a ajuda das figuras sagradas, de Muu, o deus que criou o
bebê. Muu habita na vagina e no útero ("a voragem negra e profunda") da
parturiente e a luta para arrancar a Muu a essência vital da mulher - que o deus roubou
-, de modo a que o bebê possa nascer, tem lugar dentro do corpo da mãe. Cada órgão
possui a sua alma própria e a essência vital de cada pessoa consiste na cooperação
harmoniosa das diferentes almas do seu corpo.O shaman invoca os espíritos das
bebidas alcoólicas, dos ventos, das águas e dos bosques, e mesmo os espíritos dos
'navios de prata do homem branco'; descreve o corpo da mulher em termos que o relacionam
com toda a terra e com todas as forças da natureza. Depois relata com os curandeiros
estão a penetrar no seu corpo para combater Muu e como iluminam o caminho. Descreve o seu
percurso através do interior do corpo, numa espécie de geografia emocional dos órgãos
internos, habitados por monstros e animais ferozes e emaranhado de fibras que apertam o
útero. Invoca então os senhores dos insetos dos bosques para que venham cortar os fios.
Segue-se um torneio, ganho pelo shaman e por aqueles que o ajudam. Então ele tem
que realizar sua difícil descida com auxílio dos senhores dos animais que vivem em
tocas. Embora, o shaman e seus acólitos, ao entrarem no corpo da mulher,
tivessem de seguir em 'fila indiana', podem sair 'quatro ombro a ombro'. O colo do útero
está a dilatar bem.
Através do psicodrama do mito, o shaman dá à parturiente uma linguagem
metafórica na qual a sua rovação pode ser expressa e adquirir significado. Trata-se de
uma forma altamente elaborada de pscoterapia, sendo este o único tratamento
realizado."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.89-90)
[outras referências:
Claude Lévy-Strauss, Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro,
Tempo Brasileiro, 1991; Capítulo X: "A eficácia simbólica" (pp.215-236).
Michael Taussig, Mimesis and Alterity - A Particular History of the
Senses. New York/London, Routledge, 1993; "1. In Some Way or Another One Can
Protect Oneself From Evil Spirits by Portraying Them" (pp.1-18).]
|

|
| as posições para o
parto / técnicas do corpo "Durante meu trabalho de
investigação numa grande maternidade jamaicana, havia uma luta constante entre as
parturientes e as parteiras, querendo as primeiras levantar-se para se agacharem ou
balançarem o pélvis para trás e para a frente, com os joelhos fletidos, e tentando as
segundas metê-las na cama, onde deveriam deitar-se sossegadas, como boas doentes.
Uma freira da classe média, que estava de serviço na sala de parto, embaraçada por
eu, uma pessoa de fora, estar a assistir a isto, disse: 'Não sei como aguenta ver
isto. Elas são como animais!' O pessoal estava perfeitamente consciente de que os
movimentos executados pelas parturientes não eram adequados a um código de comportamento
da classe média branca e sentiam-se envergonhadas.
As índias Sia sentam-se num banquinho baixo, enroladas num cobertor, de costas para o
fogo, levantando-se e caminhando quando têm vontade. No momento da expulsão, ajoelham-se
numa cama de areia, com as mãos agarradas ao pescoço do pai e as costas apoiadas ao
corpo da parteira, que está sentada com os braços passados em torno delas, dando-lhes
massagens no ventre. Entre os nômades siberianos, a parturiente apoia-se a duas traves
paralelas, a cerca de um metro uma da outra, ligadas por uma barra transversal; durante as
contrações fica suspensa por baixo dos braços, de modo que toda a parte de baixo do
corpo fica descontraída, apoiada à barra. Na Ilha de Páscoa, que constitui uma
exceção dado os parteiros serem do sexo masculino, a mulher decide se prefere ficar de
pé com as pernas afastadas ou sentada; o parteiro fica de pé atrás dela, apoiando-a com
o seu corpo e dá-lhe massagens lentas e ritmadas no ventre.
A posição que a mulher adota durante as últimas fases do trabalho de parto pode
variar, desde sentada nas cadeiras e banquinhos usados na Europa medieval (que só se
modificou no reinado de Luís XIV, quando os obstetras convenceram as amantes do rei a dar
à luz deitadas em mesas demodo a que aquele, escondido atrás de uma cortina, pudesse ver
tudo)[apud Pete M. Dunn, "Obstetric Delivery Today", Lancet,
April 10, 1976.], até balançar pendurada nas traves da cabana. A posição mais
freqüentemente adotada, e que é também a mais vantajosa do ponto de vista fisiológico,
é com as costas curvadas, os joelhos fletidos e os músculos que percorrem a parte
interior das coxas descontraídas..."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.93-94)
|
Cena de parto numa xilogravura de Jost Amman em
De Conceptu et Generatione Hominis de Jakob Rueff (1554), célebre manual entre as
parteiras da época.
(Philadelphia Museum of Art) |
 |
os rituais de purificação
"Os rituais de purificação são o testemunho da crise por que
passaram a mãe e a criança, e também as protegem da ameaça do desconhecido e dos
poderes das trevas exteriores. Alguns deles envolvem limpeza física, como é o caso do
hábito de se agachar sobre um balde de água 'quente como o amor de nove dias', adotado
pelas jamaicanas, um bom método de limpar o períneo sem precisar de tocar nessa
zona.
Pode dar-se imediatamente banho ao recém-nascido, como tantas vezes se
faz na nossa sociedade. Mas, na realidade, isto não é necessário pois, à exceção de
algumas manchas de sangue, os bebês nascem limpos. Eles estão cobertos de uma
substância semelhante a um creme facial que protege a sua pele dentro do útero e cuja
remoção na altura em que nascem faz mais mal do que bem. Limpar o recém-nascido tem
mais significado ritual do que eficácia higiênica.
As purgas constituem um método de limpeza drástico, popular sob várias
formas em todo mundo e, sobretudo, na nossa sociedade, onde a evacuação regular é
considerada essencial para a saúde e a limpeza e onde a venda de laxantes atingiu
proporções astronômicas. Estas atitudes relativas às funções intestinais são
transpostas para o parto. Em sociedades tecnologicamente avançadas, dá-se um clister ou
um supositório para a parturiente evacuar. Noutras sociedades podem dar-lhe uma dose de
óleo de castor que, na nossa sociedade também constitui um processo tradicional de dar
início a um trabalho de parto atrasado."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.95-96) |
o parto como rito de passagem
Robbie E. Davis-Floyd, Birth as an American Rite of Passage.
Berkeley and Los Angeles, University of California Press, 1992. (Resenha assinada por
Sonia N. Hotimsky, no Notas sobre Nascimento e Parto, Ano III, nº6, novembro de
1998, publicação do Grupo de Estudos sobre Nascimento e Parto / Instituto de
Saúde-SES-SP).
Sobre o capítulo 3, "Birth Messages"; o caso da episiotomia:
"Faz uma análise simbólica dos procedimentos de rotina do parto
hospitalar, por ela denominado de modelo tecnocrático do parto. Seu
objetivo é elucidar os motivos pelos quais as instituições, a despeito das
contra-indicações assinaladas pelas evidências científicas, continuam promovendo o uso
rotineiro de vários desses procedimentos, entre os quais a episiotomia. Eles desempenham
importantes funções rituais e simbólicas, atendendo, com sucesso, a diversas demandas
importantes dos profissionais de saúde responsáveis pela assistência ao parto, das
mulheres em trabalho de parto e da sociedade e cultura mais abrangentes.
A episiotomia é analisada como uma mutilação ritual. A vagina, em
diversas culturas, inclusive a nossa, é símbolo por excelência daquilo que é natural,
sexualmente poderoso e criativo na mulher, sendo, por isso mesmo, vista como ameaçadora
pelos homens. É relembrada a figura mitológica da vagina dentada, que ameaça
consumir ou castrar o macho impotente. No ocidente, a crença na superioridade da cultura
sobre a natureza se expressa através da metáfora, popularizada por Descartes, do
corpo-máquina humano, cujo controle e aperfeiçoamento cabe à ciência. O corpo da
mulher é retratado pela medicina como uma máquina inerentemente defeituosa. Os
argumentos em prol da episiotomia de rotina reiteram esta simbologia ao afirmar que sua
adoção protege a parturiente e seu concepto dos perigos apresentados pelo defeituoso
corpo feminino. Para a autora, esse é um dos procedimentos através dos quais se 'manifesta
a tentativa cultural de utilizar o nascimento para demonstrar a superioridade e controle
do Masculino sobre o Feminino, da Tecnologia sobre a Natureza'. Através dessa
operaçào, a vagina é desconstruída pelo médico, oficiante do rito e representante da
sociedade, para ser então reconstruída culturalmente.
Ademais, a episiotomia é útil conceitualmente para a obstetrícia. Ao
transformar o nascimento em um procedimento cirúrgico de rotina, legitima-se a
obstetrícia enquanto ato médico, pois se incorpora à sua prática um elemento central
da medicina ocidental e uma das formas mais elaboradas de manipulação do corpo-máquina
humano - a cirurgia. O ápice desse processo se dá com a adoção da cesariana como
procedimento de rotina, sendo o Brasil citado como ilustração." |
os homens e o parto
"Outrora a assistência durante o parto cabia em grande medida a
outras mulheres e, em todo o mundo, elas têm responsabilidade de ajudar uma amiga,
vizinha ou parente durante o trabalho de parto, exceto nas raras sociedades onde uma
mulher vai ter o bebê sozinha na floresta. Por exemplo, entre os Keneba da Gâmbia,
parte-se do princípio que qualquer mãe é uma parteira competente. Aprende-se a ajudar
as mulheres que têm bebês como se aprende a cozinhar. Em Inglaterra, durante a época
elizabetana, uma mulher dava à luz rodeada por 'tagarelas'; toda a gente - incluindo a
mãe - consumia grande quantidade de bebidas foirtes e 'muitas vezes a pândega era maior
que em qualquer festa'.
Os homens que começaram afazer o trabalho de parteiras corriam sérios
riscos. Em Inglaterra, os primeiros parteiros só foram reconhecidos no século XVII. Até
esta altura, um médico a quem uma parteira pedisse para assistir a um parto difícil
tinha de andar de gats e de se esconder debaixo de um móvel. Julga-se que a posição
inglesa tradicional para dar à luz - deitada sobre o lado esquerdo - deriva da reserva
feminina em deixar um homem ver-lhe o corpo, dado que nesta posição a mulher estava de
costas para o médico e ele nào precisava de lhe ver o rosto. Mesmo quando os parteiros
começaram a ser aceitos, andavam às apalpadelas debaixo da roupa da cama, por vezes com
o lençol atado à volta do pescoço, em nome da descência; durante o parto de confiar
inteiramente no tato."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.96-97)

|
fórceps
"Na nossa sociedade, os homens nunca se teriam tornado especialistas
no parto se não tivessem existidos as guildas de barbeiros-cirurgiões que se
desenvolveram no século XII. As suas regras só permitiam que fossem os cirurgiões a
utilizar os instrumentos de cirurgia. Estes eram chamados quando as coisas se complicavam
e, em 1616, o Dr. Peter Chamberlen, membro da família huguenote que inventou o fórceps,
desejando controlar uma certa guilda de parteiras e ser ele próprio a ensiná-las, viu-se
sujeito à crítica por só fazer partos utilizando instrumentos 'com uma violência
extraordinária em ocasiões desesperadas' e por não saber nada sobre o parto natural, o
que, aliás, era inteiramente verdadeiro. Quando os homens praticavam a obstetrícia
cobravam mais que as mulheres e, na segunda metade do século XVIII, tinha-se tornado moda
ter um médico do sexo masculino: mesmo os pequenos comerciantes cujas mulheres estavam
grávidas procuravam mostrar que podiam permitir-se dar-lhes os melhores cuidado,
arranjando um médico que se ocupasse do parto."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.97) |

|
obstetras
"Ao mesmo tempo, começaram a ser construídas maternidades;
tratava-se de lugares onde as mulheres pobres podiam ter os bebês, fornecendo ao mesmo
tempo material clínico para médicos e estudantes.
A obstetrícia tornou-se popular para os aspirantes a médicos, dado ser o
caminho para entrar na clínica geral. Após o nascimento do bebê, toda a família podia
ir ao médico tratar dos seus achaques. Era do interesse dos médicos limitar o poder das
parteiras e restringir os seus conhecimentos. Os livros que escreveram para as parteiras
omitiam uma grande quantidade de informações importantes a pretexto de que só os
médicos deveriam saber certas coisas. Num deste livros, The Midwife Rightly
Instructed, o autor declara que as parteiras não devem saber como tratar hemorragias
e que não devem aspirar a 'ir mais além das capacidades de uma mulher'. É de se supor
que se a parteira fosse chamada a uma casa isolada e não pudesse contar com a ajuda de um
médico a doente ficaria a se esvair em sangue até morrer.
No século XIX, os médicos tinham ganho a batalha. O trabalho das
parteiras tinha ficado subordinado à obstetrícia. A parteira atuava sob as instruções
de um médico e como sua ajudante. A Faculdade de Medicina feminina e as tentativas de
Florence Nightingale, no sentido de criar uma formação para as parteiras, ao mesmo
nível que as dos médicos, fracassaram. Não haveria uma especialidade independente. Uma
mulher ou teria de conseguir prática como médica, ou seria parteira, trabalhando sob a
autoridade do médico."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.97-98) |
pais
"Em muitas civilizações há uma regra estrita segundo a qual ele
deve se manter afastado do local do parto. Os elementos masculinos e femininos devem se
manter separados. Mas mesmo quando ele está longe, é freqüente pensar-se em que a
saúde e a vida do bebê dependem de suas ações. Se ele sair com outra mulher, se polir
a sua lança ou for à pesca no dia do parto, está a pôr em perigo a vida da criança.
Tem de estar atento às suas ações, ajudando o parto deste modo. Assim, ele participa
ativamente no nascimento do filho, embora não esteja fisicamente presente. O Corão
afirma que um pai deve oferecer preces no momento do parto e que é ele que põe o bebê
em contato com o mundo, colocando um pedaço de tâmara na sua boca.
Quando o marido colabora no parto, como acontece entre os Bang Chan do
Sudeste Asiático, ele deve estar particularmente protegido das forças femininas. Pega em
incenso, em flores e numa vela acesa, que lhe permitem entrar no mundo sagrado em que o
parto tem lugar. Invoca o auxílio dos espíritos para que os ventos do nascimento se
tornem fortes no seu corpo, pois não é ele, mas os ventos, que fazem nascer o bebê, e o
pai está ali apenas para o receber.
(...)
Deste modo, muitas sociedades atribuem ao pai um papel definido no parto.
Ao mesmo tempo, protegem-no com um cuidadoso ritual do que se pensa poder resultar daquilo
que é essencialmente uma atividade feminina. Quando o processo de participação chega ao
fim, o homem é reiniciado na masculinidade, por meio de ritos semelhantes aos que são
usados quando o rapaz se torna adulto. Ele é então um pai que teve um filho com êxito.
Embora o pai da criança possa ser chamado a preencher este papel e se
possa recorrer a mágicos quando as coisas correm mal, nas sociedades primitivas os homens
em geral nào participam no parto como técnicos e não há nenhum indivíduo do sexo
masculino que corresponda aos obstetras da sociedade ocidental. Esta função cabe
totalmente às parteiras."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.98-99) |