sobre a maternidade
"(...) a situação da maternidade é culturalmente determinada, sobre e acima de sua natureza biológica."
(Malinowski; 1930: apud Herzberg, E. "Aspectos Psicológicos da gravidez e suas relações com a Assistência Hospitalar", dissertação de mestrado USP, 1986.)


"Uma grande parte do que consideramos 'natural' na maternidade, de modo algum é natural, mas um produto da cultura. Só quando remontamos aos momentos iniciais e às primeiras horas de vida da criança e à relação entre a mãe e o bebê, que tem início nessa altura, estamos realmente ao nível do puramente natural e instintivo. E este primeiro encontro, como veremos, é de tal forma controlado pela sociedade que, em muitas civilizações de orientação tecnológica, a base biológica para a futura relação sofre tais interferências que por vezes se torna impossível a comunhão entre mãe e recém-nascido, que são como dois estranhos um para o outro. Neste caso, os processos naturais foram bloqueados por imperativos culturais."

(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade. Lisboa, Presença, 1978; p.18)


maternidade e classes sociais

"Dado que o estilo da maternidade é uma expressão da cultura e engloba um sistema de valores relacionado com o que é a mulher e também com o que é o filho, as atitudes para com ela variam de acordo com as classes sociais. Um estudo feito em Chicago (Helene Lopata, Occupation: Housewife. New York, OUP, 1971) revelou que as mulheres menos cultas eram as que mais freqüentemente diziam que não tinham problemas para criar os filhos: 'Sabem o que têm de fazer e conseguem fazê-lo'. E se mencionavam dificuldades, estas limitavam-se ao governo da casa. 'A vida é uma rotina de trabalho enfrentada sem surpresa'.
As mulheres que tinham uma formação secundária, mas que não tinham continuado os estudos, confessavam-se impotentes para tornar os filhos obedientes e felizes. Também tinham tendência para se mostrarem profundamente ressentidas com os homens e o seu mundo estava povoado de pessoas estranhas e ameaçadoras. Estas mulheres eram 'unidimensionais' nos seus interesses, limitadas ao lar e muitas vezes referiam problemas relacionados com dinheiro, com a educação dos filhos, com as lutas e discussões das crianças e com o barulho que faziam. Ficava-se com a impressão de que acima de tudo a mãe procurava controlar a sua prole. Os garotos estavam sempre a desarrumar coisas que elas tinham acabado de arrumar e a sujar coisas que elas tinham acabado de limpar. As mães deste tipo estão orientadas para o produto e tudo que desejam são crianças asseadas, sossegadas e bem comportadas e uma casa limpa e arrumada; assim, sentem-se irritadas por estas condições só se verificarem durante uns momentos fugazes. Falam muitas vezes de paciência, mas projectam uma aura de irritação.
As mulheres que andaram na universidade são mais 'orientadas para a relação', preocupam-se com o fato de serem ou não boas mães, sentem responsabilidades emocionais e criativas e ficam ansiosas perante a hipótese de não realizarem o papel de mãe em todas as suas responsabilidades. Não se preocupam com as rotinas diárias e com os aspectos práticos da maternidade, sentem-se capazes de lidar com problemas de disciplina, mas têm a preocupação de desenvolver plenamente as aptidões da criança.
(...) Todas estas mulheres se defrontavam com problemas como mães, mas definiam-nos em termos diferentes, de acordo com a sua origem educacional e cultural. Na realidade tinham em vista produzir diferentes tipos de pessoas."

(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade. Lisboa, Presença, 1978; pp.34-5)


mulher pesando pérolas de vermeer


"Talvez o que melhor caracteriza as mulheres que são mães seja a qualidade dos cuidados dispensados aos filhos. Começa com a ansiedade que acompanha o mergulho na maternidade e que tem lugar nas 4 ou 6 primeiras semanas que se sucedem ao parto, quando a mãe se encontra num estado mental que, a ser vivido por qualquer outra pessoa, seria comsiderado à beira do psicótico. Ela está atenta à respiração do bebê; acorda de um sono pesado mal ele começa a chorar; está centrada no filho e nas suas necessidades durante as 24 horas do dia. Winnicott chamou a isto as 'preocupações maternas primárias'. É um estado de transição, mas, no entanto, muitos dos seus elementos persistem ao longo da maternidade - uma espécie de atenção íntima à outra pessoa. Talvez seja a forma mais profunda de sentir intensamente a dor, o sofrimento e o medo de outrem, bem como a sua esperança e alegria; e a renúncia de si próprio em nome das necessidades alheias."

(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade. Lisboa, Presença, 1978; pp.22-3)


Perfil Feminino
de Antonio Pollaiolo,
séculoXV
(Museu Poldi Pezzoli, Milão)

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a família

"De acordo com a acumulação de bens inicial, a educação de dois ou, quando muito, de três filhos tornou-se a função principal da família moderna. Situação muito diferente da da família que atuava como unidade econômica, como acontecia no século XVIII, quando na família rural todos - jovens e velhos - punham mãos à obra, e a sobrevivência da família dependia do trabalho de todos os seus membros. Agora, a principal tarefa dos pais é centrarem-se no êxito da educação dos filhos.

'A função da família na educação das crianças deu origem à noção de que ela não é mais que um veículo de amor e educação - um pequeno enclave de afeto e carinho num mar de materialismo. O que se esquece é que os velhos, tal como as crianças, também precisam de afeição, cuidados e atenção... Enquanto outrora a família era uma unidade defensiva, com os homens e as mulheres fisicamente aptos a trabalharem para manter os jovens, os velhos e os doentes, hoje é uma unidade unicamente preocupada com o consumo e a reprodução.' (Lee Comer, Functions of the Family)"

(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade. Lisboa, Presença, 1978; pp.34-5)


a sagrada família

A Sagrada Família
de Michelangelo,
c. 1504
(Galleri degli Uffizi, Florença)


"Em todas as sociedades que conhecemos encontramos a família nuclear, sendo esta forma que temos tendência a considerar 'normal'. A maior parte das pessoas é membro de duas famílias nucleares, uma de que provêm, a família de orientação, e outra que constituem, a família de procriação. A família nuclear preenche funções sexuais, econômicas e reprodutoras e é a unidade primária em que as crianças pequenas têm os primeiros contatos com a sociedade. Evidentemente que é a mãe, ou ocasionalmente alguém que a substitui, que em geral inicia este processo.
(...)
A família nuclear - composta pela mãe, o marido e os filhos - a que estamos habituados no Ocidente industrializado, é também característica das sociedades gregárias de caçadores em que as pessoas vivem a um nível de subsistência. Mas a família alargada predomina nas economias agrícolas que também se ocupam da criação de animais.
(...)
Em grande medida, as práticas de educação das crianças têm origem nas dimensões da família. Quando esta é pequena e isolada como a moderna família de classe média, a criança fica muito dependente dos pais. Não há outros adultos que partilhem as responsabilidades e que cuidem das crianças. Numa família alargada, em que há tias e tios, primos, avós e outras pessoas para quem a criança se pode virar, o poder dos pais é diferente e vê-se confrontado com as opiniões dos outros. Todavia, na família moderna, a mãe é tudo para os filhos pequenos e, dado que o pai está em geral ausente de casa devido ao trabalho, é ela quem tem todas as responsabilidades, quem controla e cria os filhos e quem lhes dá uma imagem do mundo.
(...)
À medida que as famílias se tornam mais pequenas, os filhos não têm a oportunidade de adquirir conhecimentos tratando dos irmãos mais novos; deste modo, quando são pais não têm a menor idéia do que isto é. Nos cursos pré-natais as futuras mães dizem muitas vezes que nunca pegaram um bebê no colo, nunca viram uma criança recém-nascida, nem tiveram oportunidade de observar uma mãe a tratar do bebê. Não há lição de puericultura ou aulas práticas com uma boneca de borracha numa banheira que possam suprir esta lacuna.
Nos últimos vinte anos tem havido grande controvérsia sobre a família 'em desintegração'. As pessoas falam com nostalgia das alegrias da família alargada, embora elas nunca tivessem tido que viver com a sogra e com as tias e primas por afinidade. Todavia, a família nuclear, composta pelo homem, mulher e filhos existe desde há muito e não constitui uma simples deterioração moderna do modelo de família. Esta tem uma flexibilidade infinita para se adaptar a condições diferentes e aos desafios que lhe são postos pela sociedade mais vasta que a rodeia. Margaret Mead considera-a como a 'mais sólida instituição que temos'."

(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade. Lisboa, Presença, 1978; pp.44-50)


mães solteiras

"A legitimidade da descendência implica a possibilidade de ilegitimidade, estando a mulher solteira em desvantagem na maior parte das sociedades. Mesmo nas comunidades rurais em que os filhos ilegítimos são absorvidos pela família da mulher - mais bocas a alimentar, mas também mais braços para mais tarde trabalharem a terra - ter filhos antes do casamento é considerado uma infelicidade, a menos que sirva para precipitar a cerimônia de casamento, dando ao noivo um prova de fertilidade. De acordo com testemunhos históricos, nalgumas sociedades, em comunidades rurais da Escandinávia, por exemplo, a prova da fertilidade era considerada essencial antes de um homem casar com uma mulher. Os Bánaros da Nova Guiné só permitem as relações sexuais entre marido e mulher depois de esta ter tido um filho de um homem selecionado para a inseminação.
Em muitas partes do mundo, incluindo os guetos negros dos Estados Unidos, as povoações bantos da África do Sul, as Índias Ocidentais e a América Latina, as raparigas tentam arranjar um homem graças à sua fertilidade, e servem-se do sexo naquilo que é muitas vezes chamado 'corte consensual', arriscando-se a ter um filho, ou a ficar grávidas 'em troca de' um homem, numa relação sem compromisso e muitas vezes extremamente instável, que pode ou não envolver o casamento legal. Nestas sociedades, ter filhos fora do casamento é considerado normal, embora, em geral, pelo menos em termos econômicos, lastimável."

(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade. Lisboa, Presença, 1978; pp.48-9)


mães e filhos

"Tradicionalmente, o papel mais importante da mulher tem sido o de disseminadora de cultura através da maternidade. O fato de ela ter um útero e de amamentar significa que não só tem filhos, mas é em grande medida responsável por eles enquanto bebês e, por vezes, durante muito mais tempo. Ela é o primeiro e o mais importante canal através do qual a cultura é comunicada ao bebê. Põe o filho em contato com o mundo, ensina-lhe as diferenças básicas dos papéis sexuais e, muitas vezes, faz tudo isso de uma forma perfeitamente inconsciente. Inicia a socialização da criança e esta tarefa, na maioria das civilizações, continua-se com o auxílio de uma rede de mães e avós.
(...)
A completa dependência da criança relativamente à mãe, que em geral é a única pessoa a ocupar-se dela, pode ter como resultado uma grande sensibilidade à sua aprovação. Ela representa o amor e se este lhe é retirado a criança não tem mais ninguém que a ame. Temos tendência a pensar que isto é normal, mas na maior parte das outras sociedades a criança não necessita do amor de uma mãe de uma forma tão incondicional. Há outras pessoas que a podem amar e criar.
(...)
Quando uma criança está completamente dependente da mãe e os cuidados que esta lhe dispensa não são partilhados, a ameaça ou a realidade de uma perda de amor é muitas vezes utilizada para controlar o seu comportamento. As crianças entram em competição para conseguirem amor e quando crescem são encorajadas pela mãe e também, cada vez mais, pelo pai, que entra agora em cena para reforçar as técnicas educativas da mulher, no sentido de lutarem pelo êxito na escola e no mundo fora de casa, a fim de conseguirem maior aprovação dos pais, o que, implicitamente, 'depende dos resultados que tiverem. Isto porque, embora os pais estejam conscientemente empenhados em amar os filhos de uma forma desinteressada, eles também têm uma necessidade de sucesso a que os filhos têm em parte de corresponder' (Gerald Leslie, The Family in Social Context. New York, OUP, 1973).
As mães, inquietas com a idéia de que os filhos possam ficar abaixo da média e de que sua prole não seja suficientemente gorda ou bela, tenha poucos dentes, não consuma uma variedade de alimentos sólidos tão grande como os filhos da vizinha, ainda não fale, não se sente ou não ande tão cedo, ou não seja tão asseada ou não leia tão precocemente como a criança da casa ao lado, comparam as realizações dos filhos e competem com as outras mães.
Isto faz parte do processo de socialização da vida numa sociedade industrializada e capitalista, na qual o sucesso tem uma importância primordial e onde as realizações individuais são tudo. Algumas crianças não sobrevivem a isto, dado que nada do que fazem correspondem às expectativas ou exigências dos pais. Outras são bem sucedidas e reforçam este sistema de educação quando por sua vez têm filhos, a quem encorajam da mesma maneira."

(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade. Lisboa, Presença, 1978; pp.52-5)


Objeto número 48

O Chapéu, o Casaco
e a Pasta de Freud
THROPE: O chapéu, o casaco e a pasta de Freud
para demonstrar a importância dada aos objetos
cotidianos devido ao seu proprietário.
Para demonstrar Freud.
E homenagear Viena.
E fazer propaganda de psicoterapia infantil.
SERPENTE: Os procedimentos de
investigação psicológica foram
legalizados em 1900 pela
publicação por Freud da
Interpretação dos Sonhos, que
afirmava que os problemas
essenciais de cada indivíduo
são internos, relativos a
experiências da infância,
explicáveis e desculpáveis pela
criação. Tudo isso define um
padrão de enfoque e crença
para o século XX.
E transforma todas as mães
em vilãs.
THROPE: Pare!
Tenha pensamentos elevados!

Peter Greenaway, 100 objetos para representar o mundo

 

para objeto 66

 

frida kahlo sofre um aborto em Detroit, em 4 de julho de 1932


Frida Kahlo

Hospital Henry Ford ou La cama volando (1932)