contracepção
Papiros de 1500a.C. preconizavam tampões de linho embebidos em mel e folhas de acácia
fermentadas. Soluções de vinagre, possivelmente espermicidas, também seriam
utilizadas na Grécia Antiga, onde Aristóteles recomendava untar o colo do útero e a
vagina com azeite e foi identificada a singular prática contraceptiva de introduzir um
tubo de chumbo oco no colo do útero (diu?).
O Talmude permite a contracepção com tampões de algodão, açafrão triturado
(contraceptivo oral?) e "saltos" depois das relações sexuais. O Alcorão
recomenda o coito interrompido, os pessários feitos de uma mistura de couve, resina, fel
de boi e fezes de elefante e poções contraceptivas orais.
O Herbal de Dioscórides, escrito no século I ou II de nossa era, recomendava
que se comesse o fruto da "árvore da Castidade", mas também indicava alguns
pessários de pimenta, sumo de hortelã-pimenta, ervas, misturando tudo com mel e
introduzindo no colo do útero. Já Soranus, também na aurora da era cristã, era de
opinião que uma mulher podia evitar conceber se não tivesse orgasmo, com maiores
garantias se após as relações sexuais desse uns saltinhos, espirrasse, bebesse um
líquido frio e limpasse a vagina.
Na Idade Média, temos as bruxas e as parteiras tratando do assunto com: filtros amorosos,
técnicas de aborto e nascimento. Bula papal de 1484: "Com sua feitiçaria, magia,
sortilégios e exorcismos, elas impedem, suprimem e fazem diminuir os nascimentos... de
modo que nem os homens geram, nem as mulheres concebem".
O que sabemos do Renascimento até o século XVIII europeu, neste assunto, provém apenas
do relato de cortesãos e homens de letras. As camponesas, provavelmente e como há
incontáveis gerações, amamentavam por longos períodos com a intenção deliberada de
reduzir a fertilidade. Em muitas culturas esta prática contraceptiva é reforçada por
tabus referentes a relações sexuais durante a fase de amamentação.
"O coito interrompido é a técnica de controle de nascimentos mais generalizada
no mundo. Mas talvez o mais significativo em toda a Europa pré-industrial, tivesse sido o
casamento adiado até alguns anos depois de a mulher ter atingido a maturidade
reprodutora, combinado com sanções religiosas contra a ilegitimidade. Em meados do
século XVI, e talvez mesmo antes, as mulheres casavam em média por volta dos vinte e
cinco anos. No final do século XVII casavam cerca dos trinta anos."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.63)
Ainda neste cenário pré-industrial, já está presente o preservativo de
tripa de carneiro: o "capote inglês" de Casanova. Será, entretanto, a
vulcanização da borracha em 1843, que virá revolucionar os métodos de controle da
natalidade.
Em 1882, é criada na Holanda a primeira Clínica de Planejamento Familiar, que se
incumbiu da divulgação do diafragma, também conhecido como "capuz holandês".
No mesmo ano, uma revista médica inglesa publica artigo sobre os "abusos do ácido
carbólico", utilizado em lavagens contraceptivas em "quartinhos escuros"
para provocarem os chamados "abortos acidentais".
Mesmo num país como a Inglaterra, um serviço público com atenção especialmete voltada
para questões contraceptivas só surge em 1927. E um estudo em 1970 constatou que
praticamente 30% das gestantes inglesas utilizavam algum método quando engravidaram,
chamando atenção para a qualidade das práticas reprodutivas.
"Algumas das que usavam um diafragma (que tem que ser ajustado com
uma precisão de 5mm) não tinham recorrido a um médico para colocá-lo, tendo-se
limitado a comprá-lo na farmácia, esperando que servisse. Ainda graças ao mesmo estudo,
verificou-se que menos da metade das mulheres com sete ou mais filhos tinham discutido o
parto com a Assistente de Saúde Pública. Isso pressupõe que, mesmo nos anos 70, algumas
mulheres que pensavam estar a usar anticoncepcionais modernos adotavam métodos ineficazes
e que, embora os Serviços Sociais garantissem visitas ao domicílio com vista a
fornecerem a assistência necessária a toda a família, as mães que mais necessitavam de
auxílio achavam difícil obter informações de uma pessoa com conhecimentos, confiando
em vez disso nas vizinhas, em membros da família (geralmente cunhadas e irmãs) e nas
amigas."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.65)
política populacional
"As grandes migrações que ocorreram ao longo da história e da
pré-história africanas exigiram qualquer método de controle de nascimentos, dado que
era difícil levar mulheres grávidas e bebês em viagens longas e cansativas pelo
interior. O Zulus deslocavam-se regularmente em direção ao Zambeze, em períodos de
crise econômica e política e, mais tarde, refluíam de novo para o sul do continente.
Quando me encontrava na África do Sul, um chefe Zulu que era também um velho feiticeiro,
explicou-me a cerimônia de 'fazer parar os ventres das mulheres'. O uso da contracepção
era uma decisão política, e não pessoal. Os anciãos reuniam-se e discutiam a
situação e, antes de empreenderem qualquer ação, tinham de oferecer sacrifícios e
orações para obterem perdão dos antepassados. Eram então apanhados pequenos seixos num
rio sagrado e, durante a cerimônia, um deles era introduzido no útero de cada uma das
mulheres em idade de dar à luz. Sabe-se, já há algum tempo, que os mercadores árabes
utilizavam pedras para impedir que as fêmeas dos camelos ficassem prenhas durante as
longas viagens através do Saara, sendo, assim, os primeiros a utilizar dispositivos
intra-uterinos; mas esta prática Zulu constitui um exemplo único de utilização em
seres humanos, há muitos séculos, e como questão de política pública.
As pessoas que trabalham com epidemiologia de controle da natalidade atribuem à fome a
enorme quebra na taxa de natalidade das tribos africanas que empreendiam essas longas
migrações. Talvez ela seja também uma conseqüência voluntária de políticas
populacionais sofisticadas e resultado, não do acaso, mas de um planejamento."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.65)
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a gravidez como estado ritual
"Na maior parte das sociedades, a gravidez é um estado ritual. A futura
mãe tem uma relação ritual especial com a sociedade, incluindo com o pai da criança,
com os clãs de ambos, com o passado na pessoa dos antepassados e com o cosmos
representado pelos deuses.
(...)
Assim, as cerimônias da gravidez têm uma importante função de integração no sistema
social. Mas elas são mais que isto: ligam o presente ao passado e o humano ao divino.
O parto é importante não só devido ao seu efeito sobre o casamento e a família mais
próxima, mas também porque tem lugar no ponto de união das gerações."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.69)
"A mulher grávida está em perigo ritual, ou seja, pensa-se
que ela está exposta a perigos por se encontrar num estado 'intermediário' - ainda não
é mãe e já não é virgem ou simplesmente noiva. Deixou um estatuto, mas ainda não foi
aceita noutro. Assim, está num estado marginal. E aqui os franceses utilizam um
adjetivo, 'liminaire' - "no limiar" -, para descrever os rituais que a ajudam ao
longo deste processo difícil e que permitem aos outros proteger-se, por sua vez, dos
perigos que ela representa, pois muitas vezes há um elemento adicional de contágio.
Enquanto passa por esta crise transitória de identidade, ela também constitui uma
ameaça para as outras pessoas.
O bebê que ainda não nasceu também está em perigo ritual, não tem lugar na sociedade.
Nem sequer se sabe qual virá a ser o seu sexo, como será, ou se irá sobreviver. Assim,
também ele se encontra num estado marginal. Por este motivo, é considerado não só como
estando em perigo, mas também como vagamente ameaçador."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.70)
tabu
"As conseqüências da quebra de um tabu são muito diferentes dos
castigos humanos, pois o resultado é uma punição automática, por parte das
forças espirituais ou dos deuses.
O conceito de tabu processa-se em torno da idéia central de sujidade e pureza. A sujidade
foi descrita como 'matéria fora do lugar' (Mary Douglas, Pureza e Perigo. São
Paulo, Perspectiva, 1966). Em muitas culturas o corpo humano é concebido como um vaso,
cujas saídas e entradas devem normalmente estar fechadas e que não deve ser contaminado.
Todos os produtos do corpo, as matérias que saem do seu interior, sejam elas sangue, pus,
saliva, semen, fezes, urina ou mucosidade nasal - e mesmo a respiração e o calor do
corpo - não devem invadir os limites dos corpos das outras. Para algumas sociedades,
incluindo as que têm uma cultura judaico-cristã, a essência de todas estas formas de
sujidade é representada pela mistura dos princípios masculino e feminino - semen, por um
lado, e sangue menstrual, por outro."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.71)
risco
"Na nossa sociedade não existem atividades rituais deste tipo [das sociedades
tradicionais] ou algo que celebre o processo de gravidez, unindo os futuros pais
e as famílias em alegres preparativos para o nascimento do bebê, ou associando este
nascimento a poderes universais. Oferecemos uma estrutura de apoio emocional pobre aos
futuros pais, estrutura esta que não serve para criar uma coesão social mais ampla.
A mulher grávida torna-se uma 'doente', sendo objeto de cuidados médicos, como alguém
que tem problemas de saúde ou que sofre de qualquer deficiência. O registro de dados e a
orientação da gravidez são efetuados por profissionais que não fazem parte da
comunidade em que a mãe vive e a família e os amigos são impotentes para intervirem no
processo. Embora a gravidez, numa sociedade primitiva, possa constituir um período em que
a futura mãe recebe advertências alarmantes sobre o que deve e o que não deve fazer, a
nossa sociedade provoca uma ansiedade igual ou maior com exames, cálculos e
intervenções obstétricas constantes.
(...)
Uma conseqüência disto é a falta de confiança da maior parte das futuras mães na sua
capacidade de dar à luz um bebê saudável sem a ajuda de um médico. Elas já
não confiam em seus corpos. Isso não ocorreu por acaso, mas como uma conseqüência
direta do desenvolvimento da obstetrícia de orientação masculina. Nas palavras de
Susanne Arms,
A história do parto pode ser encarada como uma tentativa gradual por parte do homem no
sentido de retirar o processo de nascimento às mulheres, apropriando-se dele... Os homens
colocaram as mulheres deitadas de costas durante o trabalho de parto, depois conceberam
instrumentos de metal para puxar o bebê, em seguida deixaram-nas sem sentidos com
anestesias. E foram os homens que, ao longo da história fizeram tudo isto em nome de
'salvar as mulheres do próprio corpo'..." (The Immaculate Deception.
Boston, Houghton Mifflin, 1975)
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.75)
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a gravidez como estado tecnológico
"Gratas por todos estes cuidados e cheias de respeito pelos progressos
tecnológicos, não é difícil compreender que a maioria das mulheres se sinta mero
recipiente para o feto, cujo desenvolvimento e nascimento estão sob o controle do pessoal
e das máquinas dos serviços de obstetrícia, e que elas considerem o seu corpo como uma
barreira inconveniente ao fácil acesso e à exploração de todos esses dedos enfiados em
luvas de borracha, ao equipamento cintilante e mesmo - o que é ridículo, mas estamos a
falar de sensações - que se elas não estivessem ali a gravidez se poderia
processar de uma forma mais eficaz. A futura mãe tornou-se o objeto da
obstetrícia. A sua experiência da assistência durante a gravidez é na maior parte das
vezes a de um 'processamento' a que é submetida na clínica pré-natal, em 'rebanho' com
outras mulheres que seguram os seus frasquinhos de urina, os saquinhos de plástico com as
cintas e calcinhas, sem ninguém a quem possam fazer perguntas numa atmosfera
despreocupada, ou com quem possam discutir o que lhes pesa no espírito. Por vezes, o
sistema funciona com eficiência: 'Deslizamos todas pela máquina... Somos apenas um
número na ficha. Vi um médico diferente em cada uma das consultas.' Por vezes a máquina
começa a ranger e empena: 'O tempo de espera chegava a ultrapassar as três horas, e
nunca era menos de uma hora e meia'. Muitas vezes os médicos utilizados provocam uma
profunda ansiedade na mãe: 'Houve uma confusão de datas porque foram muitos os médicos
que pegaram nas fichas, e fiquei muito preocupada'... 'O obstetra ficou de pé entre mim e
a imagem do sonar - e então disse: 'É estranho.' Quando lhe perguntei o que se passava,
respondeu 'Nada, nada!' de modo que fiquei a pensar que o feto tinha braços e pernas a
mais ou a menos.'

Qualquer mulher que receba assistência pré-natal nos grandes hospitais modernos corre o
risco de deixar de se sentir criadora ativa, o 'eu' que, à sua maneira ímpar, cria um
bebê ímpar. Em termos de valores humanos, trata-se de uma perda que é difícil, se não
impossível, calcular."
(Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; p.77)
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