| Nesta seção, estão reunidas anotações
relacionadas às reflexões que acompanharam, principalmente, o processo da edição do
vídeo. Sobre a oposição simplista
entre ficção e documentário
"O que dá corpo à ficção, de fato, não é a invenção de uma história, é
a construção de uma rede de signos e de agenciamento de signos capazes de quebrar o
registro ordinário do desfile de imagens e da associação de palavras às coisas. Desse
ponto de vista, a importância que assume a forma documentária não trai um repúdio à
ficção, mas, ao contrário, um interesse renovado pelos recursos ficcionais próprios à
arte cinematográfica."
Sobre a ficção documentária
"De fato, esta última rompe as lógicas complementares dos jogos de espelho
sociológicos e das overdoses de estímulos de exceção. Ela quebra os encadeamentos
familiares de imagens e de significados que compõem o regime sensível da opinião ao
remeter, de um lado à nudez das imagens e, de outro, à indagação sobre a possibilidade
de os reunir num sentido histórico."
(Jacques Rancière, "O novo endereço da ficção". Folha de São Paulo,
13 de dezembro de 1998, Caderno mais! p.3)
Etnografia do tempo
De grande importância as lições teóricas sobre o cinema de Andrei Tarkovsi,
contidos na sua obra Esculpir o tempo.
O cineasta russo, de obra cinematográfica radical, que inclui os monumentais Andrei
Rublev e Solaris e os particularíssimos O Espelho, Nostalgia
e O Sacrifício, destaca-se também como um dos raros cineastas a teorizar sobre
a arte (em geral) e sobre a sua arte (o cinema, o seu cinema) em particular.
Praticamente só dirigiu obras de ficção, concebendo a arte cinematográfica como
uma espécie de "etnografia do tempo", arte de "registrar o tempo",
arte de "fazer esculturas com o tempo"...
"Como o cinema imprime o tempo? Digamos na forma de
evento concreto. E um evento concreto pode ser costituído por um acontecimento, uma
pessoa que se move ou qualquer objeto material; além disso, o objeto pode ser apresentado
como imóvel e estático, contanto que essa imobilidade exista no curso real do
tempo."
"O tempo, registrado em suas formas e manifestações
reais: é esta a suprema concepção do cinema enquanto arte, e que nos leva a
refletir sobre a riqueza dos recursos ainda não usados pelo cinema, sobre seu
extraordinário futuro. A partir desse ponto de vista, desenvolvi as minhas hipóteses de
trabalho, tanto práticas quanto teóricas."
"O tempo em forma de evento real: volto a insistir nisso.
Eu vejo a crônica, o registro de fatos no tempo, como a esência do cinema: para mim não
se trata de uma maneira de filmar, mas de uma maneira de reconstruir, de recriar a
vida."
"Trata-se de selecionar e combinar os segmentos de fatos
em sucessão, conhecendo, vendo e ouvindo exatamente o que se encontra entre eles e o tipo
de ligação que os mantém unidos."
"Se, no cinema, o tempo se manifesta na forma de um
evento real, este se dá em forma de observação simples e direta. O elemento básico do
cinema, que permeia até mesmo suas células mais microscópicas, é a observação."
O acontecimento
O parto humano.
O sobreacontecimento: registrá-lo em vídeo.
Registro em vídeo, modo particular de incluí-lo.
Modo particular de implicá-lo, perturbá-lo, provocá-lo a um novo equilíbrio, um
outro acontecimento, um sobreacontecimento: o parto humano registrado em vídeo.
Dirigir
Na primeira fase, mais que tudo, garantir que determinadas circunstâncias
para a captação de imagens aconteçam. Gerir uma estratégia. Cumprir determinados
passos. Auto-impor-se um método de trabalho. Dirigir é deixar-se dirigir pelas regras.
Editar à maneira dos geômetras
Na edição, também há um método, isto é, determinadas regras para ver,
organizar, relacionar, selecionar, associar, conectar numa série sucessiva, as imagens do
parto.
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