"Muitas vezes desejei ter nascido mulher.
Parece-me a única forma segura de ser plenamente humano."

Laurence Lerner, Selves

mulher ex-voto
Mulher. Ex-voto. Madeira natural. Altura 20cm. Coleção Lívio Xavier. Foto Rômulo Fialdini. In Lina Bo Bardi, Tempos de grossura (Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1994)
 

Esta é a forma da fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
- artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a ação correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jatos límpidos de amor
quentes e enormes, trêmula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo - depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
- vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e ativa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.

Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como num nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
- a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman, Folhas de Relva
(fragmento de "Eu Canto o Corpo Elétrico"
do poema "Filhos de Adão"
na tradução de Geir Campos)

 

eva e eu
eu e ela eva e eu
gosto pela terra onde jorra
o esperma estrela primeira o primeiro amor
quando o céu mudou de cor

eva e eu
nosso excesso sexo ex-céu
nosso fim começo eu e ela
uma célula pérola pétala sob o sol
quando a tarde escureceu

eva e eu
a costela dela sou eu
minha mãe matéria me leva
onde a terra tem cheiro onde chove onde a chuva cai
para onde o tempo vai
onde a carne tem gosto e o rosto enrugará
onde cante o sabiá

Arnaldo Antunes, Eva e eu


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Objeto número 2

Adão e Eva
THROPE: Empregue um homem e uma mulher
para ficarem de pé numa redoma de vidro.
Adão deverá ser um homem maduro,
E a mulher não deve ter qualquer marca de nascença em seu corpo.
Eva deve ter umbigo?
Adão deve ser circuncidado?
Deus criou o homem à sua
própria imagem?
Deus tinha umbigo?
Deus era circuncidado?
Esse homem e essa mulher devem representar Adão & Eva.

Peter Greenaway, 100 objetos para representar o mundo

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Objeto número 39

A Vênus de Willendorf
THROPE: A Vênus de Willendorf
Para demonstrar um ideal sexual,
Fecundidade feminina,
Um objeto precioso,
Um tesouro arqueológico.
Desejo,
Luxúria,
Reprodução,
Continuidade,
A mulher como objeto passivo,
O primeiro exemplo de uma
longa lista de ideais sexuais
que estão sempre mudando.
SERPENTE: Mas há alternativas para o ato de admirar
as mulheres.
Por exemplo, começar a fumar.

Peter Greenaway, 100 objetos para representar o mundo

 

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l'origine du monde

 

solvida

Frida Kahlo
El sol y la vida (1947)