| Introdução O Pensamento e a Peste |
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"O
saber parece fundar sua verdade lutando contra a epidemia, Henri-Pierre Jeudy |
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Pensar a epidemia. Eis o trabalho, do qual se apresentam aqui os primeiros resultados. É preciso, portanto, que explicite: O que entendo por pensar? Que epidemia penso? Identifico na tragédia uma potência metafórica capaz de sintetizar as duas perguntas numa só.
Se no sentido Teat.[teatral] une-se, bem mais do que metaforicamente, à questão do pensamento (particularmente o pensamento filosófico, em sua criação grega), no sentido Fig.[figurado] é uma predicação freqüentemente adequada à epidemia; e a epidemia que penso é, sem dúvida, uma tragédia. É preciso, portanto, que se explicitem: Quais as relações (mais do que metafóricas) do pensamento com a tragédia (o drama ático)? Qual o interesse em se retomar aqui tais relações? Em que sentido a epidemia é uma tragédia? No sentido de um acontecimento funesto, desgraça, grande mal? Ou no sentido dramático de uma ação com personagens, de um grande ato (à altura desse grande mal) onde atores culturais protagonizam um drama (de resto, intensamente vivido pelo "coro")? Ou em ambos os sentidos, e o que interessa, então, é a relação intrínseca entre eles? São estas as perguntas que busco responder nessa primeira parte do trabalho, dedicada a apresentá-lo em sua concepção geral e seus pressupostos: as respostas dadas são seu plano de fundo. |
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| O Pensamento e a Tragédia | |
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"pensar é sempre seguir a linha de fuga do vôo da bruxa" Gilles Deleuze e Félix Guattari |
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Já nesse exame superficial da palavra, através do dicionário, podemos identificar uma espécie de síntese do "trabalho da língua": obra teatral que veio do ditirambo / peça teatral em verso que termina mal / pôr extensão, qualquer desgraça, infortúnio, mau fado, acontecimento funesto, todo acontecimento que provoca lástima ou horror/ gênero numa taxonomia teatral. Os sentidos ordenados na definição do dicionário sugerem camadas superpostas numa estratificação "geológica" da língua, que se tornam realmente surpreendentes quando nos aproximamos do nível etimológico; um nível em que suo alcançadas as camadas mais profundas, o núcleo duro, o elemento durável, o procedimento significante original, sobre o qual vieram acumular-se as sucessivas camadas de significados.
Entra em cena a obra de Nietzsche sobre "O Nascimento da Tragédia a partir do Espírito da Música", que constitui minha referência particular sobre essa questão. O universo conceitual aí desenvolvido pôr Nietzsche permite a identificação de determinadas forças, que pretendo aqui estar resgatando, enquanto tropo, para uma certa compreensão do que seja e de como se dê o processo do pensamento na atividade filosófica e, mais inclusivamente, na cultura. Estas forças, que segundo Nietzsche encontram-se presentes na criação da tragédia (o drama ático), correspondem a determinados sentidos, que podem ser identificados, tanto na criação filosófica de conceitos, quanto na criação de idéias culturais. Esse desvio de significados a partir do esquema interpretativo nietzscheano é, na realidade, mais metonímico do que metafórico, à medida que não podemos dizer que a arte dramática, o pensamento filosófico e as idéias culturais sejam campos semânticos inteiramente distintos e independentes, e também à medida que "seus" objetos se mantêm em estado de troca perpétua, intercambiando significados, ora como relação entre a parte e o todo (teatro, filosofia / cultura), ora como relação entre o procedimento e o produto (drama / filosofia, cultura). Mas há ainda uma outra relação particular, assinalada pôr Nietzsche, entre a tragédia (o drama ático) e o pensamento filosófico (o que estaria na origem dos sistemas metafísicos idealistas): o pensamento filosófico seria a causa do declínio da tragédia; mais exatamente, a sua idéia nos leva a conceber uma transferência de cena, em que o diálogo "migraria" da tragédia para o pensamento filosófico, o que epitomaria todo um processo cultural, cujas conseqüências suo das mais decisivas para a evolução do espírito humano. Esse processo tem início no próprio âmbito da tragédia, e traduz-se naquilo que Nietzsche denominou a "socratização" da tragédia, como ultimação da sua tese fundamental de que a tragédia se originou na música, isto é, de que o drama se originou no coro e de que a instalação da "cena apolínea" é o destino da tragédia. Entendamos melhor o desenvolvimento dessa idéia, fundamental para as nossas questões, com o auxílio de estudiosos da sua filosofia:
Esse pode ser considerado o princípio de toda a sua crítica ao idealismo metafísico e que se estenderá, a seguir, com força repulsiva ainda maior, à doutrina cristã, tomando a ambos como formas de "negação moral da vida". Deixemos que ele mesmo explique melhor o sentido dessa verdadeira "aversão à vida" que atribui às doutrinas morais. Há uma síntese excepcional, a esse respeito, no parágrafo 5 da Tentativa de Autocrítica, discussão que, a partir de 1886, passa a preceder as edições de O Nascimento da Tragédia. Aí afirma que a doutrina cristã...
Antes de passar adiante, é preciso que se desfaça qualquer equívoco possível sobre o sentido da posição nietzscheana - caracteristicamente intempestiva e expressa em tom bombástico - de se colocar "contra a moral": como homem de conhecimento, Nietzsche levantou-se, fundamentalmente, contra toda "interpretação moral da existência". Não se tratava, evidentemente, de uma posição ética imoral, mas de uma posição cognitiva amoral - descentrada, tanto em relação a Deus, quanto aos sujeitos - como forma de escapar a todo tipo de ilusões teológicas e metafísicas. Nietzsche pretendia, acima de tudo, deslocar o sujeito da sua função supostamente central no conhecimento, desconstruir a sua cumplicidade com os enunciados, decifrar os efeitos idealistas de suas representações. É assim que pretendia extrair o conhecimento da vida e da pluripotencialidade de suas manifestações: denunciando um saber que se edifica, justamente, sobre o esquecimento de determinadas dimensões do mundo, e isso, em nome de uma estabilização identitária dos sujeitos. É esse, fundamentalmente, o sentido da sua "doutrina dionisíaca", essa "visão artística do mundo". Ainda no parágrafo 5 da Tentativa de Autocrítica, escreve:
Não iremos prosseguir, nesse momento, com nenhum tipo de exegese da obra do filósofo alemão; o exposto até aqui - esquematicamente, a polaridade estabelecida entre a "visão moral" e a "visão estética" do mundo -, já me parece suficiente para o cumprimento do objetivo proposto, isto é, traçar um plano de fundo para o trabalho de investigação que se apresenta. Ora, o plano de fundo é apenas uma tentativa de fixar alguns marcos referenciáveis para os sobrevôos intuitivos desse trabalho, particularmente aqueles relativos ao seu próprio processo de realização: os elementos do pré-pensamento que se revelaram através do próprio pensar. Isso significa, portanto, que não se deve esperar dessa discussão preliminar uma exposição dos instrumentos de investigação a serem reencontrados nas partes subseqüentes do trabalho, nos moldes de uma explicitação metodológica, como poderia ser, por exemplo, uma retomada da abordagem genealógica nietzscheana. Não é esse o tipo de adesão ao seu pensamento filosófico que se quer aqui estabelecer ou, mais precisamente, não é nesse nível, mas num nível que pode ser chamado de "pré-filosófico", um nível ainda quase inteiramente intuitivo, ou nível das disposições mais gerais do espírito. O diálogo com Nietzsche é "musical" e se inscreve sobre um plano propriamente dionisíaco, que vem se nivelar com esse plano de fundo. Harmoniza-se em torno dos dois "personagens conceituais" básicos desenvolvidos na regressão genealógica que realizou em O Nascimento da Tragédia: Dionísio e Apolo. A sua afirmação de que o fenômeno estético "trágico" está ligado "à duplicidade do dionisíaco e do apolíneo, da mesma maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos" - essa afirmação encontra-se perfeitamente em analogia com o que foi experimentado neste exercício de pensar a epidemia e reflete-se, agora, nas aproximações teóricas buscadas e na forma geral de exposição dos resultados ensaiada. Nesta também é possível identificar uma duplicidade que creio, agora, poder chamar de "trágica": trata-se da reconstrução (ou da "encenação") de um acontecimento (a epidemia em sua dimensão cultural), enquanto produto necessário de um gesto apolíneo, isto é, um gesto fundado na aparência, numa ilusão que nos salva de uma fusão imediata com a experiência vivida (com a "música"); mas trata-se, ao mesmo tempo, de ceder ao impulso dionisíaco de aniquilamento desse mundo da aparência, impulso de destruição dessa "cena" que se estabelece através do jogo regrado das imagens. Trata-se, de uma certa forma, de reinscrever na cena do pensamento, a música e sua tonalidade; na sua simbólica, o corpo e a voz; no seu texto, a poesia e a teatralidade. Não é esse, afinal, o sentido da "metafísica de artista" proposta por Nietzsche? Não é ela, a filosofia de um sátiro? Não é mesmo Dionísio, o personagem "simpático" de sua filosofia? É preciso, portanto, que se entenda um pouco melhor o sentido desse "impulso dionisíaco" e o que pode significar essa reinscrição da "música" na "cena do pensamento". Nas últimas páginas do seu estudo, reconhecendo as dificuldades em se apreender o fenômeno dionisíaco e a sua contribuição para o "efeito trágico", compara-o ao significado da dissonância musical:
Estes resultados contraditórios que Nietzsche encontra na nascença da tragédia são, na sua opinião, a revelação de uma espécie de "matriz significante de toda representação e figuração". Desse modo, a tragédia compartilhava, com a esfera da arte apolínea, o prazer das aparências, e o poeta trágico devia possuir as virtudes de um "figurador plástico" (Bildner). Simultaneamente, a tragédia negava tal prazer e revelava a co-presença num mesmo criador (e numa mesma criação) das virtudes da "arte não-figurada" (unbildlichen). Na tragédia, ambos os impulsos, apesar da aberta discórdia entre eles, encontravam-se conciliados e emparelhados, sendo que, como já vimos, o fim da tragédia, a sua "socratização", adveio, justamente, do enfraquecimento relativo de um deles. Essa conciliação e o emparelhamento de forças, a que devemos atribuir o chamado "efeito trágico", por uma série de contingências ligadas ao processo desta investigação ou, mais exatamente, ligadas ao modo como foi se definindo um interesse de investigação (o que será tratado no início do próximo capítulo), se me afigurou, desde um primeiro momento, ainda que intuitivamente, como um procedimento que parecia ser imposto pelas próprias realidades estudadas, como se fosse a condição que exigissem para permitir a aproximação desejável. Foi apenas numa fase tardia desse processo, que a leitura de Nietzsche veio trazer os sentidos que melhor permitiram, até aqui, traduzir as novas "sensibilidades filosóficas" experimentadas. O mergulho que praticava num mundo puramente "aparências", puramente representações, me conduzia inexoravelmente a indagações, em que se entrecruzavam preocupações éticas e estéticas, que só faziam se multiplicar no redobramento espiritual que significa pensar a cultura. Boa parte dessas indagações deverão ser progressivamente elaboradas ao longo de todo o trabalho. Por ora, como plano de fundo, desejo somente evocar o par conceitual nietzscheano, enquanto o elemento unificador mais profundo de toda problemática concernente às manifestações do espírito. Suas idéias são aqui retomadas como princípios e, portanto, devolvidas a um plano de intuições. Sua síntese mais perfeita, para os fins dessa discussão geral, encontra-se no parágrafo de conclusão da obra:
Não foi sem ressonâncias intuitivas que, primeiro, fui levado a considerar a duplicidade do apolíneo e do dionisíaco nas manifestações antitéticas do espírito e do ser do mundo: há "vontade de afirmação da vida" e "vontade de negação da vida" no espírito que permanece ligado à vida, como essa liga-se à morte; no espírito que, à imagem da pluripotencialidade do ser, constitui-se num mundo absoluto e igualmente fundado no caos infinito: mundo amoral ou pré-moral, onde a própria moral não passa de um padrão "civilizador" do jogo das aparências, um jogo da vida, uma dinâmica vital, uma mutação fabulosa no espírito e no ser do mundo primordial, a necessidade de um existir cada vez mais subjetivo, uma nova sensibilidade à dor, uma nova relação com o Mal. Para separar o belo do horrível é preciso conceber/criar o belo e o horrível, mas é preciso que, antes, tenham sido revelados, isto é, que tenham partido de uma experiência, de uma forma de conhecimento que passa pelos sentidos, e não pela razão. Essa separação é de valor, mas de valor estético e não moral, valor produzido na existência concreta dos homens, na sua relação com a fome, a miséria, o sofrimento, a dor e, principalmente, na sua relação com a morte. É claro que esse modo de valorar as coisas é, rigorosamente, inseparável da valorado que se produz na relação com os outros homens, essa sim, uma valorado essencialmente moral. Entretanto, o que se quer por ora destacar é, fundamentalmente, o estabelecimento desse jogo valorativo que se apresenta como necessidade da própria vida nos modos de existir humanos: a valorado estética. Profundas mudanças nestes modos de existir (que aqui, como vertente interpretativa, vincularei centralmente ao processo de individuação) conduzirão a um progressivo desligamento entre as aparências e a vida, entre o pensamento e os nossos atos, entre as idéias e as coisas. O valor moral passa à frente do valor estético e já não é mais possível perceber que a moral, ela mesma, é artifício da vida no homem, da vida que é sempre manifestação absoluta e contingente, nem boa nem má, porque a-consciente, a-voluntária. Junto com isso, perde-se também de vista, que a valorado moral tenha se originado numa relação de dominação. Esse aspecto, por sua vez, é analisado numa outra obra polêmica de Nietzsche: A Genealogia da Moral. Aí afirma que o "valor de origem", isto é, a posição original de valor, residiria na "moral" do mais forte (aristocrática), que define as suas ações e qualidades como boas e, secundariamente, a dos fracos como má. A origem dos valores morais, por sua vez, residiria no ressentimento dos escravos em relação aos mestres, de tal forma que o mal passa a ser as ações e qualidades do aristocrata e o bem é, secundariamente, definido como a negação do mal e a posição de valor dessa negação. A moral seria assim, para Nietzsche, antes de mais nada, o modo de triunfar dos fracos ou, melhor dizendo, o modo de triunfar que enfraquece. Contudo, o que privilegio aqui são os poderes do indivíduo, pois tudo indica que é em torno a estes que vêm se forjar as possibilidades de uma universalização dos valores, as possibilidades de uma posição comum de valores (válidos para mestres e escravos); é em nome de tais poderes que se esquece o que "valem" os valores. E é nesse sentido que entendo a afirmação de Nietzsche de que toda moral é contra a vida: uma estranha luta contra a vida na vida. Entretanto, toda autonomização de idéias em relação ao mundo não pode deixar de ser vista como uma forma de "negação da vida", ainda que se autojustifique como "afirmação" de uma certa concepção da vida (tendencialmente entendida, como bem-estar humano individual). A moral absolutiza-se enquanto algo que está além da nossa capacidade cognoscitiva, como transcendente (isto é, como decorrente de um princípio que está dado fora, em geral antes, de toda experiência, todo conhecimento, podendo ser Deus, a razão, o sujeito, a técnica, tanto faz...). Absolutiza-se a luta do Bem contra o Mal: é o "fim" da vida, o "fim" de uma valorado vital... É o "fim" da imanência absoluta do mundo e o surgimento dos universais do saber, das ilusões de transcendência (da Idéia, de Deus, do Homem, da Máquina, tanto faz...). É a moral.
Num plano menos intuitivo e confessamente marcado pelos pressupostos da genealogia de Nietzsche, considero que todo conhecimento é "interpretação", no sentido de um investimento de sentido, mas jamais "explicação". Conhecer um acontecimento é investi-lo de sentido e investi-lo de sentido é investi-lo de valor. Inversamente, toda perda de sentido é também perda de valor e a expressão "isso não tem sentido!" equivale a dizer "isso não tem valor!", pelo menos, "valor lingüístico" positivo (e já se verá o que isso quer dizer). A presente reflexão, como gesto de conhecimento, não saberia fugir a essa regra geral e também se caracteriza enquanto investimento de sentido/valor. Contudo - e aqui, talvez, consiga dar um pouco mais de concreticidade às proposições que vim avançando -, aquilo que, apoiado no filósofo-artista, denominei uma "visão estética do mundo", enquanto modo de conhecimento e "interpretação do mundo", funda-se justamente na pretensão de desatar esse nó existente entre sentido e valor, de desligar a verdade da moral e, assim, talvez, re-descobrir o que "vale" o valor. Ao investir o acontecimento estudado dos sentidos que lhe foram negados - uma variante do jogo dionisíaco de destruição das aparências -, inevitavelmente, se o investe também de um contra-valor. É através da re-incorporação desse contra-valor ao signo, que se pretende evidenciar o valor que é o sentido e o que pode "valer" aquele valor. Não me parece ser outra a pretensão da démarche genealógica nietzscheana e, por essa razão, talvez haja interesse em se compreender um pouco melhor os passos básicos da sua crítica ao "idealismo" sensu lato, do seu ataque dirigido à "verdade idealista".
Para o filólogo Nietzsche, é a língua esse código que funciona como sistema de verdade e cuja origem jamais é questionada. Nessa perspectiva, todo signo é visto como "sintoma", isto é, como o lugar onde vêm se condensar os diferentes processos da língua e o provável fulcro de seus deslocamentos lógicos. Segundo suas análises, todos esses procedimentos gramaticais engendradores dos signos teriam por função manter o sujeito numa idealidade suficiente para si, quer dizer, corresponderiam a investimentos imaginários a serviço de uma lógica da identidade, uma "lógica do olho". Em outras palavras, todo esse código, todo esse grande sistema de crenças e ficções, teria por função criar o sujeito. Ou, mais exatamente, o sujeito seria a contrapartida e o efeito deslocado desse sistema. O "idealismo", nessa concepção, se caracterizaria pela encenação lingüística de uma verdade, inteiramente fundada na crença dos casos idênticos (na qual se sustenta, também, a lógica) e das "causalidades imaginárias", cuja função principal continuaria sendo garantir os privilégios do sujeito. Toda operação "idealista" está, assim, marcada por um recalcamento (um "esquecimento ativo", segundo Nietzsche) do jogo das instâncias significantes, pela sobreposição de novos "estratos de investimentos imaginários". Todos estes investimentos podem ser entendidos como o "avesso calculado de um desejo", qual seja, o desejo de uma separação cortada e irreversível entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso. Esse desejo tem suas raízes mergulhadas na própria posição estável de um "sujeito pleno", presente para si mesmo e à origem de seus atos, mestre da cadeia de significantes e, portanto, emancipado de qualquer referência ao inconsciente, ao corpo, aos significantes... Nesse ponto, retomamos a questão do interdito colocado sobre o corpo que, como vemos, também é interdito colocado sobre a palavra ou, na expressão nietzscheana, sobre a "prática filológica". Corpo e significante (todo e qualquer elemento significante) foram colocados - antes de qualquer outro lugar, na própria língua - em posição de dominados, subjugados aos poderes do indivíduo. O ponto de partida da sua genealogia, assim como o ponto de partida de qualquer prática de conhecimento "dionisíaca" é, e só pode ser, o corpo e/ou os elementos significantes. Sobre estes, busca operar uma verdadeira refundição dos significantes ocultos, com a finalidade de se estar promovendo uma encenação regrada dos elementos censurados. É, portanto, gesto de (re-) investimento de (anti-)sentido e (contra-)valor: é re-posição nos discursos dos poderes ocultos da metáfora, da riqueza significante que permanece inutilizada; é re-inscrição no signo, do "jogo significante não dominado por um significado-valor, não submetido a uma `lógica que convenha'". Como já afirmei, essa discussão introdutória não se pretende metodológica e nem se pode dizer que a genealogia tenha sido a démarche adotada neste trabalho. Entretanto, há uma relativa coincidência de pressupostos (mais certo é falar em "disposições gerais") que me parecem justificar tais aproximações. O caminho aqui tentado foi, de fato, decidido a cada passo da investigação, tendo como critério norteador principal as "exigências" que iam sendo feitas pelo próprio "objeto" (nem tão objeto, portanto, esse "objeto"). Antes que começasse a dizer qualquer coisa a seu respeito, me pareceu evidente (pela própria natureza "falante" desse "objeto") que devesse ouvir o que tinha a dizer. É dessa escuta que nasceu este trabalho e sua "metodologia selvagem", que esperam vir a ser julgados, principalmente, pelos seus resultados. Sobre isso, aliás, é preciso enfatizar que, acima de tudo, não há qualquer pretensão de que se venha a extrair um modus operandi universal do conhecimento, das diligências aqui empregadas. Essa "reificação metodológica" não deixaria de ser uma suprema traição dos pressupostos deste trabalho: algo assim como reduzir uma intensíssima viagem de desbravamento a um morno roteiro turístico. Deixemos, então, que tal "metodologia" se apresente em ato e retenhamos, agora, as "disposições gerais de espírito" que a engendraram. E não foi apenas na obra de Nietzsche que vieram se respaldar as intuições decantadas. Há outros aspectos da experiência atravessada nesta investigação que precisam ser explicitados e que não são recobertos apenas por esse referencial. Num dialeto mais estritamente filosófico, mas que não perde a sua referência mais profunda a uma concepção "trágica" do pensamento, pode-se dizer que toda essa "filosofia de sátiro" consiste, a rigor, no abandono de todas as ilusões de transcendência e construção de um pensamento sem deus ex machina, onde os conceitos (os produtos por excelência da criação filosófica) sejam a ultimação apolínea de um fundo dionisíaco, de uma matriz significante absoluta, de uma imanência pura. Não seria esse, aliás, o paradoxo do pensamento, pelo menos enquanto ele for de alguma maneira autêntico - a tensão entre o dionisíaco e o apolíneo? Entre o infinitamente próximo do caos e o cosmo/ethos? Entre a imanência absoluta e a transcendência? Sendo que a transcendência, ela mesma, é imanente... Para que continue a buscar respostas para essas e algumas outras questões, sem me desviar demais do objetivo proposto para esta introdução (autêntico posfácio) ao trabalho, pretendo, daqui em diante, aproximá-las de uma discussão a respeito da construção do texto. Por suposto, não se deve concluir do que foi dito até aqui, que o conjunto do trabalho reflexivo sobre a epidemia venha a ser apresentado como a alegoria de um grande teatro. O que se empresta da tragédia são determinados sentidos, não um figurino. O pensamento tem a sua própria linguagem e seu verdadeiro teatro é o texto (razão pela qual, a meu ver, esse último não deve ser tratado como contingência externa ao trabalho). Se é possível que se represente o pensamento à imagem da tragédia, se essa metáfora é possível (e com ela nos beneficiamos do conhecimento de uma certa dinâmica, explicitada pelo jogo conceitual nietzscheano), é porque em ambas as realidades - tragédia e pensamento - reencontramos o lugar das mesmas forças. E quais são esses lugares? |
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O Pensamento e o Texto |
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"o que vem à tona já vem com ou através de palavras ou não existe" Clarice Lispector |
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O texto pode ser entendido como a mise en scène do pensamento: seus múltiplos registros se entrelaçam e tecem uma cena, constroem um palco para os acontecimentos a serem narrados. Sua narrativa é polifônica e, nesse coro de vozes, destacam-se determinados personagens que vêm protagonizar os acontecimentos. Coro e Protagonistas: eis as figuras sobre as quais vêm se hipostasiar, respectivamente, as forças dionisíacas e apolíneas. Nessa discussão sobre o pensamento e o texto, eis os seus respectivos lugares. Constituem, a bem dizer, os dois tipos de vozes em presença no trabalho: uma que canta (ligada à música); outra que argumenta (ligada ao diálogo). Privilegiarei, neste momento, a discussão do coro e do personagem conceitual que lhe está relacionado, Dionísio . Esse privilegiamento deve ser atribuído à sua precedência relativa, isto é, ao fato de que antes de qualquer diálogo, antes de qualquer voz protagonista, há sempre essa voz de fundo, essa voz entrançada ao diálogo e que participa intensamente da narrativa, como voz anônima e lírica de um coreuta, como a voz que traz o testemunho de uma sensibilidade e uma experiência vivida. O coro é o solo de todas as vozes, inclusive a "apolínea" voz dos protagonistas. Antes, porém, de falarmos sobre o coro e Dionísio, cabe um rápido comentário sobre os protagonistas (quanto ao "personagem" Apolo, ele será discutido numa outra parte deste trabalho e sob uma outra ótica, certamente mais apolíneas). Os protagonistas do texto correspondem aos já mencionados personagens conceituais, da forma como esses foram, por sua vez, conceitualizados por Deleuze e Guattari. Para estes autores, os personagens conceituais são elementos constitutivos de toda criação filosófica autêntica, ainda que muitas vezes só estejam dados implicitamente, subliminarmente. É justamente em Nietzsche que os filósofos franceses reconhecem o melhor exemplo de uma filosofia explícita e profusamente atravessada por personagens conceituais:
Nietzsche formulou, ele mesmo, um conceito equivalente ao de personagem conceitual, mas falava em "representantes": Dionísio e Apolo seriam os representantes junto ao pensamento de um acontecimento pensado (o nascimento da tragédia). O acontecimento, por sua vez, só se define como acontecimento, na medida que pensado, conceitualizado. Pode-se dizer, aproximando-se mais do referencial de Deleuze e Guattari que, mais do que representantes, os personagens conceituais são os verdadeiros "autores" do pensamento, na medida que são os autores do acontecimento e, nele, disputam a sua verdade. Vejamos melhor: no presente trabalho, Dionísio e Apolo, apesar de serem destacadamente retomados, não devem ser confundidos com os personagens conceituais que lhes são próprios, isto é, aqueles que são imanentes às realidades que serão aqui abordadas. Quando muito, pode-se admitir que correspondam a "arquipersonagens conceituais", atuantes sobre o plano de fundo do trabalho, mas que, obrigatoriamente, adquirirão traços personalísticos mais e mais diferenciados, conforme passemos aos planos particulares, àqueles planos em que se distinguem as evoluções de um acontecimento especial. Como a preocupação dominante do trabalho consistiu na caracterização conceitual do acontecimento, os personagens conceituais poderão ter permanecido por demais subentendidos, subnutridos. Mais certo, entretanto, é dizer que permaneceram inominados, embora, idealmente, já não deverá ser tão difícil, uma vez caracterizado o acontecimento, que lhes encontremos um nome: Homo "preventivus"? Securitarista?... Talvez, mas desde que não esqueçamos que um outro personagem conceitual também poderá ser o Vírus ou a Peste. Bastará que esses protagonistas da "cena epidêmica", por um critério todo interno ao trabalho, correspondam aos "personagens" que efetivamente disputam a verdade do acontecimento, na forma como esse é construído e conceitualizado. Ora, o elemento de composição dominante na palavra protagonista é agôn: segundo Bailly, "luta nos jogos", mas também, no sentido figurado, "agitação da alma, inquietude, ansiedade, angústia". O protagonista é sempre aquele que desempenha um primeiro papel numa disputa. Os protagonistas do pensamento disputam a verdade do acontecimento pensado, assim como os filósofos do "idealismo metafísico" disputavam a "amizade da sabedoria"...
Mas, voltemos ao coro, a voz dionisíaca. Exploremos alguns de seus significados para que, em seguida, possamos resgatá-los no processo de confecção do texto que, como já foi dito, é inseparável do processo de construção do próprio pensamento. _ guisa de introdução, lanço Mão, aqui, do recurso à intertextualidade, que pode ser entendido como uma espécie de parataxe radical do discurso: os intertextos ganham, no novo contexto, o estatuto de uma unidade significante diferenciada: são "textemas", cuja justaposição paratática num discurso só vem reforçar o liame intuitivo, a ponte invisível entre as idéias, que é a dimensão que se quer destacar, nesse momento. Agrupei os intertextos em dois conjuntos: o primeiro, da escritora francesa Hélène Cixous, é composto de fragmentos de um ensaio poético sobre o papel do coro na tragédia; o segundo reúne, ainda uma vez, fragmentos selecionados de O Nascimento da Tragédia, em que Nietzsche discute o fenômeno estético da "visão" dionisíaca, partindo da figura do sátiro, o coreuta dionisíaco: O Coro 1
O "Sem-Nome"; aquele que experimenta "a penosa sensação dos Sem-Nome"; o que não é ninguém e é "toda a cidade e todo o mundo"; o que sofre no corpo "a paixão do país, da tribo, da família, da raça", o que "encarna a paixão das paixões", a "vocação sísmica do corpo", as "tristezas físicas da alma", os "terrores de vidas anteriores"; o "Herói do Pressentimento": todas figuras da constelação do signo do Coro. Figuras, enquanto imagens psíquicas que pro-vêem, simultaneamente, os significados que participam da constituição do signo e que traduzem uma verdade vital, uma verdade reumanamente "trágica", uma verdade "em sua força máxima": a verdade buscada pelo entusiasta dionisíaco, a verdade como Anschauung, vidência de um "palco" interior... Se essa vidência é exaltada, exterioriza-se e é possível, então, que se contemple o deus. Mas é preciso distinguir entre duas situações que podem se originar desse fenômeno estético dionisíaco: uma, a da ultimação apolínea de disposições e cognições dionisíacas, a situação lírica em que a "visão" dionisíaca é cantada e dançada; outra, a da redenção apolínea na aparência, a situação épica da "di-visão" apolínea, aprisionada numa existência puramente fenomenal. Ora, é fácil concluir, apenas com o que já foi exposto, que toda pretensão de fazer sair o texto do "coro" se confunde com a "situação lírica" propriamente literária, que é a poesia. Isso não quer dizer, entretanto, que o que será apresentado a seguir seja poesia (stricto ou lato sensu), mas que o processo de textualização, em consonância com o processo mais geral do pensamento, nos seus já discutidos pressupostos e predisposições gerais, poderá utilizar-se de determinados procedimentos poéticos que, para evitar qualquer confusão com o sentido vulgar de poesia, como expressão de sentimentos puramente individuais - cuja responsabilidade pode ser atribuída a determinados mitos românticos -, denominarei de procedimentos poiéticos, evocando, assim, o sentido originalmente grego de poietikós como "aquilo que cria", "aquilo que dá forma", "aquilo que conforma". Bem, até aí, nessa conotação mais geral, os procedimentos poiéticos definem apenas a própria "situação lírica". É preciso, portanto, especificar um pouco mais o escopo do procedimento que será aqui adotado que - não é demais repetir - deverá guardar uma coerência obrigatória com as preocupações e pressupostos que norteiam o processo do pensamento. Trata-se, fundamentalmente, da utilização de um procedimento privilegiado da produção poética, que é a ressemantização ou aquilo que o poeta simbolista francês Mallarmé definiu como: "Donner un sens plus pur aux mots de la tribu" (Dar um sentido mais puro às palavras da tribo). Afinal, a busca aqui não é mesmo a da re-significação de um acontecimento (particularmente pelo resgate dos seus significados recalcados)? Esse lance de conhecimento, entretanto, só adquire sua expressão formal na síntese pensamento-texto. Logo, será preciso que o processo de textualização passe por tratamento análogo, o que deve, evidentemente, começar pela própria palavra - esse significante o mais próximo do corpo, cuja "forma" (que não deve ser confundida com o seu símbolo gráfico, o que seria o supra-sumo do seu exílio no plano fenomenal) é uma "imagem acústica", isto é, não o som material da palavra falada, mas a sua "impressão psíquica". Em síntese, essa ressemantização pode ser apreendida em dois níveis complementares: aquele mais geral de uma "aproximação semiótica" das realidades estudadas, isto é, aquele no qual se pressupõe que toda "forma" identificada nessas realidades consista em alguma coisa distinta de si mesma, cujas significações inconscientes precisam ser reveladas; e aquele outro, que se refere ao problema das possibilidades "formais" de expressão do pensamento, isto é, ao problema da própria textualização, enquanto gesto de criação apolíneo, mas essencialmente preocupado em escapar ao "logocentrismo" da linguagem, às suas reificações sígnicas, preocupado, enfim, em reagir ao esvaziamento semântico das palavras.
Esse procedimento talvez adquira uma importância ainda maior numa era de banalização das palavras, de destempero lingüístico, de saturação das imagens, onde a aceleração dos processos de circulação de signos - graças à praga comunicacional do mundo contemporâneo, que vem se agravar, ainda mais, numa geração informacional dos signos - conduz a um tal desgaste das dimensões significantes, que se torna cada vez mais difícil "ouvir" seus significados. E toda perda de sentido é, igualmente, perda de valor, ou pelo menos uma perda das referências simbólicas que permitem um julgamento qualquer de sentido ou valor:
Esse destino fractal do valor, essa verdadeira "orgia" de sentidos e valores, bem poderia nos fazer pensar num novo estágio "dionisíaco" da cultura, mas corresponde, de fato, à conseqüência da absolutização de um único sentido e um único valor. Corresponde, assim, ao fim da metáfora e à instauração da "metonímia total", conforme nos é dado a perceber pelo mesmo autor:
Essas últimas observações apontam para uma espécie de "ultrapassamento" lingüístico, que não terei a preocupação de aprofundar nesse momento, porque ele será, necessariamente, retomado no âmbito da própria realidade estudada; aliás, como um elemento central para a compreensão do sentido da epidemia na cultura contemporânea. No plano exclusivo de uma discussão sobre o texto, encontramos uma colocação equivalente feita pelo escritor italiano Italo Calvino que, no seu livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, fala na ocorrência de uma epidemia sígnica ou, nos seus próprios termos, de uma "peste da linguagem", de "uma perda de força cognoscitiva e de imediaticidade, como um automatismo que tendesse a nivelar a expressão em fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos, e extinguir toda centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias". Calvino não se interroga sobre as origens do "flagelo lingüístico"; apenas relaciona-o, vagamente, à "perda de forma de uma paisagem humana e material caótica" (fractal). Sua preocupação toda é a "salvação" da literatura; sua proposta: uma "idéia de literatura" essencialmente preocupada em criar eixos de referência para um mundo "disforme", o que se daria pela recuperação dos significados, no seu grau mais profundo. Em outras palavras: uma ressemantização. Não há tempo, agora, de nos estendermos demais nessa discussão propriamente literária sobre o texto, o que poderia ser desejável numa outra circunstância. Tendo presente que o objetivo deste ensaio preliminar é apenas apontar algumas linhas gerais do trabalho, em termos dos traços diagramáticos que se oferecem como suporte para uma reflexão (não como uma estrutura rígida de coordenadas, mas como bosquejos que, ao sabor dos movimentos contingentes do pensamento, vão fundando suas direções absolutas) - iremos nos ater somente aos problemas de expressão que, mais diretamente, vêm vincular essa questão do texto às questões do pensamento filosófico, enquanto esse for definido como processo de criação de conceitos a partir de um fundo intuitivo, enquanto comportar um processo de extração de formas de uma "paisagem humana e material caótica", enquanto for poíesis. Trata-se aqui de estar preparando o solo de enraizamento mais profundo da reflexão que se segue (o seu testemunho mais radical!), ainda que a sua "visão" só se complete nos frutos, ainda que o seu sentido efetivo só venha a ser apreendido nos resultados. Por isso, não há tempo e essa discussão preliminar deve voar. Deve ser um rápido sobrevôo das principais condensações intuitivas presentes ao espírito durante a realização desse trabalho que, aqui e ali, vieram aterrizar sobre referências externas, aquelas que lhes ofereciam diálogo e uma possibilidade de se extraírem dos céus. Nesse ponto, elas vêm pousar sobre algumas idéias e conceitos a respeito do processo de produção filosófica, emprestados da recente (e, infelizmente, última) obra da dupla de filósofos franceses Deleuze e Guattari, anteriormente citada. E para estes, filosofia é essencialmente criação de conceitos a partir de um fundo intuitivo e comporta, indubitavelmente, uma dimensão poiética. Esse fundo é o "plano de imanência absoluta" do pensamento, composto por "traços intensivos", "diagramáticos", "direções absolutas" do pensamento, que são o solo para a criação de "conceitos intencionais". Creio que uma rápida discussão dessas idéias, no âmbito das nossas preocupações mais imediatas com o processo de textualização, possa iluminar os sentidos da solução aqui ensaiada, os sentidos do procedimento poiético. Antes de qualquer confuso, é preciso deixar bem claro que toda separação cortada entre o "plano de imanência" e os "conceitos" que lhe são derivados é forçosamente artificial e só se justifica como forma de exposição abstrata de uma dualidade intrínseca ao pensamento, que entendo ser a mesma identificada no "efeito trágico". É, portanto, tão artificial quanto pode ser a separação entre o dionisíaco e o apolíneo, e como vimos a propósito da tragédia, corre-se sempre o risco de relançar o pensamento em alguma nova ilusão de transcendência.
A busca de uma forma compatível para esse delicado equilíbrio não impede que o texto possa oscilar internamente entre esses dois pólos, e não há dúvida que essa oscilação se expressou, sem maiores pudores, no presente trabalho. É assim, por exemplo, que essa discussão preliminar pode autodenominar-se um plano de fundo, e que o conjunto do trabalho pode pretender finalizar-se sobre um conceito (securitarismo). O importante é que esse movimento não seja confundido com um caminho necessário para o pensamento/texto, pois não há aqui a menor ilusão de transcendência "metodológica". Não há aqui, em relação ao caos do pensamento, a mesma preocupação que tem a ciência, em relação ao caos físico. Não há "caos determinístico" do pensamento, apenas movimentos a serem seguidos. Quando nos preocupamos principalmente com o pólo dionisíaco, quando nos ocupamos em traçar o que seria o plano de imanência do pensamento, seguindo suas linhas de fuga, por mais que nos ancoremos em conceitos e fragmentos de conceitos, corremos sempre o risco de nos perdermos do acontecimento, justo do acontecimento que esse plano viria a conter, potencialmente, como conceito. Esse risco aumenta a cada nova colisão do plano com os outros planos que lhe são co-supostos, mas aumenta ainda mais quando texto e pensamento se vêem vítimas do próprio acontecimento pensado. Quando esse vem assolar aqueles "países mentais", dizimando seus sentidos até quase a extinção, quando o único sentido passa a ser essa perda de sentido e ela, aparentemente, é contagiosa. Não pretendo aqui fazer a mínima apologia da fobia de contato, muito menos nesse plano lingüístico, mas não podemos tampouco ceder a qualquer impulso de contato, a toda paixão de idéias que se alimente dessa contigüidade dos planos, sob pena de nos perdermos definitivamente do problema que motivou o traçado dos planos. Isso, no fundo, não deixaria de ser um modo de introduzir uma certa transcendência no pensamento: uma transcendência da epidemia. E essa talvez seja a peculiaridade mais perigosa desse acontecimento virulento: a de contaminar o próprio pensamento com sua lógica, de tal forma que o acme da epidemia seria quando ela não pudesse nem mais ser percebida, seria o império do seu único sentido. A arma já sugerida para conter esse aniquilamento de sentidos - a ressemantização - consistiria numa contra-epidemia de sentidos, numa reinjeção no pensamento/texto dos outros sentidos da epidemia, que fogem ao simples contato "mental" de idéias, para emanarem do próprio acontecimento. Em outras palavras, contra essa transcendência da epidemia, somente uma epidemia absoluta: para não nos perdermos do acontecimento pensado, sucumbidos pelo seu próprio movimento, é preciso que passemos a habitá-lo, que passemos a viver no acontecimento. Nada pode parecer mais temerário, mas isso é um pouco como no caso das vacinas: nos seus primórdios, também parecia insensato (pelo menos, entre os ocidentais) que a inspiração ou inoculação do conteúdo virulento das pústulas pudesse conferir imunidade contra a varíola...
Se algumas páginas atrás sintetizei esse procedimento de ressemantização em dois níveis complementares, agora desejo retomar esses dois níveis em sua inseparabilidade; e o elo indestrutível dessa unidade só pode ser a palavra. Estamos, o tempo todo, trabalhando sobre um plano de imagens, não apenas reduzidas à sua expressão fenomenal, mas fundamentalmente como "impressões psíquicas", como essa voz que ressoa das profundezas da memória a cada encontro renovado com as imagens, com as palavras. É essa voz que procuramos escutar, com toda a sua força, quando buscamos "boa literatura". E é bem essa a expressão: "boa literatura", como é a "boa filosofia" que deve substituir as "filosofias verdadeiras". O que importa não é buscar aproximar nossas aporias de uma verdade intangível e eternamente descentrada em relação a si mesma. O que importa é ter um "bom pensamento", no sentido de um "pensamento interessante", que diga respeito aos nossos problemas e deles seja capaz de extrair novos sentidos. A "boa filosofia" é aquela que nos faz "ouvir" outros sentidos nos acontecimentos, é aquela que nos leva a escutar as "vozes" que partem do coro e que, efetivamente, regem todo acontecimento pensado e engendram os seus protagonistas, que são, efetivamente, aqueles que pensam o acontecimento.
É curto o caminho que separa determinadas soluções para o processo pensamento/texto de uma ambiciosa pretensão filosófico-literária, e tocar nesses assuntos traz riscos seguros para o seu autor, principalmente em áreas de saber, onde eles ainda permanecem muito "tabuizados". Ora, o mais provável, nessa primeira apresentação de resultados, é que esses não se mostrem em nada parecidos com o que habitualmente esperamos de um trabalho filosófico/literário. Entretanto, não posso dizer que seja outra a pretensão, nem que o trabalho tenha sido guiado por qualquer outro tipo de preocupação, que não fosse essa pesquisa "acústica" sobre as imagens, esse perscrutar dos significantes ocultos nas palavras. O acontecimento, o problema básico pensado, situa-se nesse nível mesmo das imagens, e não haveria outra justificativa para que chegássemos a tais procedimentos, que não fosse uma certa intuição do seu fluxo nos fatos, isto é, nas imagens que efetivamente descrevem e elaboram esse acontecimento. Evidenciar esse fluxo, esse devir, que é o único verdadeiro acontecimento que merece ser pensado: eis o que parece (postulo) ser possível através desses "artifícios musicais" praticados sobre as imagens, através dessa "dissonância" produzida no signo. Para que possamos ver/ouvir "para além" de seu significante desgastado.
Toda essa prática vem se ancorar, em última instância, sobre a palavra e encontra-se restrita por determinadas possibilidades da língua. No limite, não há renovação possível nos sentidos que definem um acontecimento, sem renovação dos sentidos da própria língua, dos sentidos que estão dados na língua. Com efeito, não se tardará a descobrir que essa prática, ela mesma, participa do devir do acontecimento, que é, em parte, o devir da língua. Tampouco será difícil perceber que as pretensões da "boa filosofia" não são apenas ambiciosas, mas são as mais ambiciosas possíveis: transformar a linguagem, inventar uma outra língua. Talvez, por isso mesmo, os primeiros passos sempre exagerem nas metáforas, já que estas correspondem ao primeiro movimento propriamente lingüístico de transformação dos sentidos, correspondem sempre a um impulso de ver/ouvir "para além" do signo, de liberar a "energia" produzida pela "fissão" do seu núcleo, pelo desligamento de seu campo semântico de origem - o que revela, candidamente, aquilo que parece ser o mistério profundo da língua, ou seja, a sua origem "esquecida" como figuração codificada de forças e sentidos produzidos na vida. É a vida que se expressa nessa contagiosidade das metáforas.
O mundo é ilatência, como no mito do mundo, em que o mundo fala de si, como no mito das musas: mythos, a palavra dita pelas musas, a fala do mundo. O olhar é latência. O olhar...
O mundo se pensa nos sujeitos pensantes (filósofos), que só sabem conceber, parir idéias (maiêutica), conceitos (conceptos) do mundo, que estão no mundo em potência, latência, aparência a ser revelada e que revela a vida, o substrato das nossas intuições, um "acontecimento que nos sobrevoa", um devir intuído do mundo. O racionalismo exacerbado, por demais convencido da reflexão (dialética ou não) de um sujeito sobre um objeto, tende a autonomizar os conceitos em relação à vida, e acentua o papel da consciência (individual ou intersubjetiva), correndo o risco, assim, de não mais reencontrar o grande teatro do pensamento, onde o mundo inteiro se absolutiza e o próprio Eu se torna apenas um personagem a mais nesse teatro (de resto, bastante bizarro, nessa sua obstinação monótona de ser Eu, de dizer "Eu..."). Como dizem Deleuze e Guattari, não somos nós que pensamos, mas um certo estado de nós. Todo "logocentrismo" interdita essa démarche filosófica fundamental que é colocar-se naquele estado em que o mundo se pensa, "através" de nós; e pensa um certo mundo, de propósito; um propósito ditado pelo mundo, um propósito de "personagens" desse mundo, que ditam o seu "papel" à intuição sensível de um autor, um criador de conceitos. A redução do mundo do espírito a uma consciência debruçada sobre o mundo exterior, se não interdita, pelo menos dificulta sobremaneira o colocar-se nesse mundo absoluto, que dobra-se e desdobra-se sobre si mesmo (e não nós que nos dobramos sobre esse mundo, deixando-o refletir-se em nossa interioridade). Um mundo absoluto (um teatro), onde está aberta a possibilidade para o "impossível", extraindo do ser do mundo suas imagens "inimagináveis", puramente estéticas, "para além do bem e do mal", aquelas formas totalmente aderidas à vida.
Pensar é criar conceitos, segundo uma intuição que lhe é própria: um plano de imanência absoluta. O gesto de fundação desse plano é, entretanto, indissociável do olhar que enxerga os conceitos em potência. E esse olhar e esse gesto não são do autor - o plano de imanência não é um plano de consciência! -, mas o olhar e o gesto de determinados personagens conceituais, eles mesmos imanentes ao plano pensado. O texto é a expressão frasal numa língua da tessitura própria do pensamento; é a extensão frasal numa linha de um caminho do pensamento - possivelmente um méthodo, mas desde que não seja entendido como a fixação de um plano invariável, que funcione como "referência para proposições extensionais", e sim, como o traçado incessante, quase caótico, como trançado inextricável de planos, planos de "consistência intencional para conceitos" -; é a extensão frasal numa linha de um caminho do pensamento e de seu construtivismo próprio (isto é, imanente aos planos traçados). O texto é a expressão numa língua de uma "região sonora" do pensamento, de uma "extensão musical" que pode, apolineamente, ser tratada como formas - espectrografia da "introvisão"! -, como imagens que compõem a cartografia de um país mental, como uma paisagem do pensamento ou, ainda, como um cenário - vidência do "palco" interior! A escrita é a composição de uma paisagem insólita (uma paisagem para cegos, mas cujo traçado só terá valido a pena se for capaz de revelar uma nova paisagem, igualmente, para videntes). Na realidade, uma paisagem desdobrada em múltiplas paisagens, que são como os planos parciais (fractais) de uma paisagem total intuída, como as formalizações assumidas por uma paisagem que permanece, no fundo, essencialmente musical. É nesse gesto apolíneo que o texto se faz possível; é essa formalização do pensamento que permite sua extensão numa linha como sucessão de imagens, como caminho do pensamento que traça trança tece uma "imagem do pensamento", que é, antes de mais nada, uma imagem para se poder pensar, uma imagem para se situar no pensamento. É o pensamento mesmo que se faz possível nesse gesto apolíneo, mas, como na tragédia, toda eficácia (consistência) do elemento apolíneo permanece dada em seu fundo dionisíaco, de onde é extraída a força das formas, através dos efeitos de ressonância da paisagem absoluta (do plano de imanência absoluta), que é pré-formal e de natureza musical...
Todas essas questões sobre o texto só vêm reforçar o já apontado caráter paradoxal do pensamento, uma vez que esse deve servir-se das frases de uma língua comum para exprimir alguma coisa que não é mais da opinião comum (doxa). Pensar é paradoxal e exige do texto certas peripécias...
O texto é a expressão/extensão frasal numa língua/linha de um caminho do pensamento, que oferece uma linguagem/linhagem (linhagem, aqui, tanto no sentido genealógico, quanto de um tecido grosso), a ser recortada retalhada recosturada, num gesto construtivista. Nesse sentido é que já foi dito que o texto é um caminho do pensamento seguido de um construtivismo. "Seguido", aqui, entretanto, não tem nenhum valor discursivo, isto é, não deve induzir a nenhuma seqüência necessária, correspondendo antes aos constrangimentos espaciais da linguagem textual. Esse duplo movimento do texto, assim desdobrado - uma imanentologia e uma conceptologia -, é em si mesmo indissociável enquanto duplo movimento do pensamento (o gesto que funda o plano de imanência é indissociável do olhar que enxerga os conceitos em potência...), constituindo, de resto, a condição de consistência intencional do pensamento. Seu desdobramento em dois momentos da textualização é apenas tendencial e não deve fazer perder de vista esse sentido de copresença recíproca. Grosso modo, pode-se dizer, a respeito dos próximos três capítulos que dividem este texto, que correspondem a essa seriação fictícia do pensamento, que vai da instauração do plano de imanência (A Epidemia Absoluta) à criação de um conceito (Securitarismo), cujos contornos se definiram nos movimentos e nas velocidades infinitos do plano, passando por uma "transição" (Epidemia e História) onde a "imanência relativa" da História (o plano de imanência, cujos movimentos e velocidades "infinitos" se encontram, respectivamente, interrompidos e/ou desaceleradas) progressivamente delimita um proto-conceito (ou os componentes parciais do conceito em construção). Seriação fictícia, repito: a epidemia absoluta é o solo fértil para o cultivo de um conceito, intuitivamente antecipado pelos "olhares" dos protagonistas (potenciais) do acontecimento atual; o securitarismo é o conceito que, se arrancado do seu solo de imanência, condena-se a uma idealidade vazia e uma atualidade inócua. Essa reciprocação de forças e formas é garantida, como já se viu, pelas velocidades infinitas de um pensamento teleologicamente unificado por olhares: olhares que escavam o mundo (o ser) e extraem a matéria-prima com a qual o pensamento (o espírito) reconstrói o ser do mundo. Esse duplo movimento traduz os lugares respectivos, no seio do pensamento, dos gênios do dionisíaco e do apolíneo, da música e da forma, do coro e do drama, ou ainda, os lugares do canto e do diálogo, da intensidade e da intenção, da imagem absoluta e do argumento. |
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| A Cultura e a Peste | |
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"a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se coloca nela" Emil Michel Cioran |
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Numa analogia superficial, podemos dizer que a metáfora trágica do pensamento continua como metáfora trágica da cultura; a crítica do "idealismo metafísico" estende-se como crítica de um idealismo sensu lato, de uma "cultura separada da vida". De fato, a vida parece não suportar a vida; falta vida naquilo que foi feito da vida. Subentende-se, aqui, a existência de dois sentidos homônimos: vida como modo de viver, existência (como nas expressões "vida cotidiana", "custo de vida", "vida sedentária" etc.); e vida como impulso vital, força, vibração, vitalidade (como nas expressões "cheio de vida", "dar vida a...", "ser a vida de..." etc.). A crítica de uma "cultura separada da vida" é a crítica daquilo que foi feito da vida, é um tomar partido pela vida, é um ponto de partida para uma crítica da vida cotidiana... Nesse ponto, aproxima-se da discussão um outro autor: o ator Artaud, de quem emprestamos o conceito de "cultura separada da vida". Como Nietzsche, trata-se de um espírito dionisíaco, dotado desse instinto em prol da vida, além de figura maior do teatro francês (e mundial) neste século. Sabe-se que Artaud, como outros homens de teatro do início do século, foi profundamente influenciado pelo estudo de Nietzsche sobre o nascimento da tragédia grega, o que torna desnecessário apontar os paralelismos entre suas idéias e aquelas que já foram avançadas, a respeito da obra do pensador. Nos ensaios do ator, entretanto, essas idéias aparecem numa linguagem mais descomprometida com a amarração conceitual (o que não quer dizer que sejam mais ligeiras e superficiais, mas apenas que nos movimentos vertiginosos e ultra-rápidos de seu texto, situamo-nos o mais próximo das intuições profundas), na fluidez própria das obras que não se preocupam em vir a ocupar regiões bem definidas do saber, mas interessam-se apenas em investir contra seu tempo. A obra (literária e teatral) de Artaud é, em grande parte, uma obra "de protesto":
A essa idéia de uma "cultura separada da vida", Artaud contrapõe a idéia de uma "cultura em ação". Para que possamos compreender melhor essas duas idéias, selecionei dois excertos do ensaio-prefácio Le théâtre et la culture que, além de sintetizarem os pontos essenciais dessas idéias para os fins desta introdução, permitem uma visita ao brilhante texto artaudiano, o que me pareceu bem mais interessante que uma descolorida paráfrase:
A expressividade contundente dessas duas passagens dispensa qualquer esclarecimento extra. Acrescentemos, apenas, mais algumas idéias sobre essa noção de "cultura em ação" que, do modo como é colocada por Artaud, é aquela que mais se aproxima da concepção de cultura que está na base deste trabalho. Aqui também, a cultura é entendida, fundamentalmente, como um meio de exercer a vida, como um meio de captar suas forças e dirigi-las; a cultura é, assim, uma exaltação perpétua do mundo, uma obra movente de "atores" e não um objeto estático, museificado, para espectadores, como parece ser a concepção vulgar moderna de cultura; ela é identificação mágica com as formas e não a sua pré-classificação lógica em sistemas, como parece ser o caso da nossa cultura taxológica (taxidermia das imagens!). Trata-se, enfim, de uma idéia de cultura que em nada se coaduna com o "uso" moderno da cultura, o que é bem apreensível nas concepções correntes sobre a própria arte. É para esse campo, aliás, que se dirigem as análises críticas de Artaud. É fundamentalmente contra a "nossa idéia inerte e desinteressada da arte" que se levanta; contra essa estranha idéia de uma ação desinteressada, mas que é, assim mesmo, ação e "ação de colocar-se próximo da tentação do repouso".
Hoje, talvez bem mais que à época de Artaud, parece que prevalece mesmo essa regra do jogo estético compactuada a partir da "tentação do repouso", este sinal inequívoco de instintos lassos e de uma malparada "vontade de negação da vida". As culturas autênticas, isto é, aquelas não desligadas da vida mas, ao contrário, altamente interessadas pelas coisas, são capazes de extrair, através da identificação mágica com as formas, as forças dessas coisas, enquanto a arte e a cultura do "repouso" buscam sistematicamente expurgar essas forças, já que estas sempre podem (e, na realidade, devem) arrastar consigo o lado sombrio das coisas. Na citação acima, já é possível depreendermos que o "pacto estético" se estabelece em torno de uma linguagem: "uma linguagem que prova o gosto que se tem pelas facilidades desta linguagem". Por isso, para Artaud, somente um teatro "que não se fixa na linguagem e nas formas" é capaz de abrir caminho para "o verdadeiro espetáculo da vida". Essa idéia também não nos pode mais ser estranha, depois da discussão de Nietzsche sobre o "efeito trágico" (fundado no impulso de destruir as aparências) e dos princípios da sua genealogia (caracterizada pela desconstrução da linguagem nos seus efeitos de cumplicidade com o sujeito). É preciso dizer também que, se Artaud parte do problema da cultura para colocar o problema do teatro e da arte em geral, Nietzsche, ao estudar o fenômeno dionisíaco nos gregos e a sua dissolução sob o socratismo, tampouco tinha a intenção de restringir o seu alcance a uma discussão sobre o teatro (ou à ópera wagneriana, como é muitas vezes a interpretação que se faz de O Nascimento da Tragédia), mas tinha uma preocupação mais geral voltada para a cultura.
Que teatro é esse, sonhado por Artaud, capaz de renovar o "sentido da vida"? Parte da resposta já foi dada: um teatro que não se fixe na linguagem. Mas, como Artaud intencionava "romper a linguagem para tocar a vida"? É nesse livro que encontramos os seus dois manifestos do Teatro da Crueldade, onde propõe um teatro que reintegre as forças conjuradas pela cultura do repouso, um teatro reintegrado a uma "noção de vida apaixonada e convulsiva; e é nesse sentido, de rigor violento, de condensação extrema dos elementos cênicos, que se deve entender a crueldade sobre a qual ele quer se apoiar." É na Peste que primeiro reconhece essa força, que gostaria de ver reintegrada ao teatro (e à cultura). Não lhe interessa, evidentemente, a entidade mórbida específica, mas tão somente a dimensão em que a Peste é a fisionomia espiritual de um Mal: uma tragédia! Um espetáculo de horror! A reversibilidade total das regras do jogo! A presença de um estado que é de uma força extrema e onde se encontram vivas todas as potências da natureza!
Na última parte dessa citação, aparece uma outra questão que não poderia deixar de assinalar nesta introdução, ainda que ela venha a ser retomada num outro momento deste trabalho (e mesmo de forma central), sob um ponto de vista apolíneo. Trata-se da questão da catarse:
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Pode-se dizer que o problema do Mal é o horizonte absoluto deste trabalho, seu plano de fundo mais inclusivo. Mas que significa o problema do Mal, nessa altura dos acontecimentos? Numa época em que todos os entusiasmos voltam-se para as bem sucedidas investidas da ciência e da tecnologia contra o Mal, em praticamente todos os campos da existência (e aí, ao apontar suas armas para o Mal, definindo-o, quando não definindo o próprio campo da existência); numa época em que o sofrimento humano, em particular aquele decorrente da ação de forças naturais (e, quem sabe, a Felicidade não advenha exatamente de uma "naturalização" de todas as causas do sofrimento?), esse sofrimento, que parece decorrer de uma "vontade" bastante indiferente aos transportamentos da sensibilidade humana perante seus efeitos, este mesmo sofrimento parece, outrossim, em vias de se ver sob controle humano (o que significa dizer, banido, se realmente há esse consenso moral em torno da Felicidade); numa época, enfim, em que a confiança no poderio tecnológico (apesar da estranha desconfiança que igualmente provoca) vai ao ponto de nos fazer alucinar coletivamente o horizonte da desaparição do Mal - não seria quase ridículo (patafísico! mateológico!) pretender retomar uma questão que se apressa a abandonar, proximamente, a experiência humana e, portanto, toda forma de representação? Ainda que as coisas se dessem realmente como parecem ser esperadas, creio que ainda assim não seria ridículo tratar dessa questão (como não é necessariamente ridícula, nem a patafísica, nem a mateologia), como tampouco é ridículo falar de um morto, como nunca é irrisório fazer a história de um país conquistado. Entretanto, não me parece efetivamente que as coisas possam se dar dessa maneira. Respiro, em meio a este otimismo irrestrito, um estado de pré-pânico coletivo que me faz suspeitar que o Mal ainda terá uma longa história entre nós. Afinal de contas, seria possível conceber um mundo depois do Mal (d.M.)? Absoluta manifestação de vida, sem valor para a existência humana? Seria a técnica uma manifestação vital tão absoluta que fosse capaz de banir o Mal, não apenas da existência humana, mas da existência do mundo? Ou não haveria ética alguma na manifestação absoluta da vida e essa presunção tecnológica é indicador de um delírio de sanidade (uma obsessão de assepsia...) e moralidade (uma tecnodicéia...)? Por esse caminho, não seria o caso de nos perguntarmos para onde vai o Mal banido? Em que terra será seu exílio? Se é sempre reproduzido (na ética e na técnica) como contraimagem do desejado, como aquilo que deve ser evitado, repelido, não estará para sempre dada, justamente aí, a sua presença no mundo? Mas onde? Como? E se, ao contrário e totalmente na contramão dos tempos, não for justamente uma mutação moral, na essência mesma da moralidade (e da sanidade, isto é, uma mutação radical na sensibilidade ao sofrimento), trazendo uma nova configuração ética (e técnica), a única verdadeira possibilidade de se alcançar essa existência, não depois do Mal, mas talvez "para além do Bem e do Mal"? O Mal revelou-se como questão nas imagens do Medo. E as questões mais iniciais deste estudo partem de um medo específico, que é aquele que acompanha a história das epidemias. Não se trata de um Medo (e um Mal) genérico, mas de uma de suas encarnações - de uma de suas mais significativas encarnações: a Peste. Ouso dizer que possui tamanha centralidade dentro da problemática geral do Mal (pelas ligações que estabelece entre o sofrimento físico e moral humano, por acometer populações em escala de cataclismo natural, por constituir-se, juntamente com a fome e a guerra, numas das principais formas do flagelo humano), que me parece inconcebível interessar-se pelos sentimentos e comportamentos suscitados por esta manifestação coletiva da doença, sem ser levado a considerar sua problemática mais geral, ainda que como rasgos pré-filosóficos (rasgos no véu de maia!), que visam apenas tocar a intuição mais profunda que se tem dos problemas específicos e que, como já se viu, está relacionada a um certo parti pris pela vida. É paradoxal, pelo menos à primeira vista, que esse parti pris venha a se expressar num estudo que tome como seu núcleo organizador mais profundo a questão do Mal. É paradoxal, mas apenas à primeira vista, porque a nossa cultura "humanista" opõe correntemente o Mal à vida. Mas este estudo, relembrando, interessa-se pela Peste, pelo mal epidêmico, pela doença coletiva e contagiosa, pelos modos de se exercer a vida em situações de epidemia, pelas expressões culturais dessa experiência... do Mal. A potencialidade cognoscitiva que pode ser atribuída a esta perspectiva do Mal decorre de sua dualidade fundamental, que evidencia o plano mesmo em que se situa este estudo e sua possibilidade de vir a ser uma apreensão interessante do problema da Peste (e, num certo sentido, do problema mais geral da doença); sob a ótica do Mal, dá-se o desdobramento espiritual da Peste enquanto um mal sofrido (por um ser passivo, em estado patológico - pathos!) e um mal cometido (por um ser ativo, necessariamente mau, pecador, criminoso, imoral - quem?). Pretende-se estar reconhecendo em determinadas imagens culturais da Peste a expressão de uma forma singular de sensibilidade ao sofrimento e de exercer a vida em situações de epidemia, que expressam, em essência, o duplo equacionamento dado pelos homens a este problema, tanto no plano da razão, quanto no da moral. Dessa perspectiva do Mal, aliás, a técnica e a ética são sempre inseparáveis...
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( introdução capítulo 1 capítulo 2 capítulo 3 bibliografia )
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