a criação se faz em
gargalos de estrangulamento. mesmo numa língua dada, mesmo no português
por exemplo, uma nova sintaxe é uma língua estrangeira dentro da língua.
se um criador não é agarrado pelo pescoço por um conjunto de
impossibilidades, não é um criador. um criador é alguém que cria suas
próprias impossibilidades, e ao mesmo tempo cria um possível. é preciso
lixar a parede, pois sem um conjunto de impossibilidades não se terá
essa linha de fuga, essa saída que constitui a criação, essa potência
do falso que constitui a verdade. é preciso escrever líquido ou gasoso,
justamente a percepção e a opinião ordinária são sólidas, geométricas.
nada de abandonar a terra. mas tornar-se tanto mais terrestre quanto se
inventa leis do líquido e do gasoso de que a terra depende. o estilo, então,
tem necessidade de muito silêncio e trabalho para produzir um turbilhão
no mesmo lugar, depois lança-se como um fósforo que as crianças vão
seguindo na água da sarjeta. pois certamente não é compondo palavras,
combinando frases, utilizando idéias que se faz um estilo. é preciso
abrir as palavras, rachar as coisas, para que se liberem vetores que são
os da terra. todo escritor, todo criador é uma sombra. a partir do
momento em que se escreve, a sombra é primeira em relação ao corpo. a
verdade é da ordem da produção de existência. não está dentro da
cabeça, é algo que existe. o escritor emite corpos reais. no caso de
Pessoa são personagens imaginários, não tão imaginários, porque se
lhe dá uma escrita, uma função. mas ele sobretudo não faz, ele mesmo,
o que os personagens fazem. não se pode ir muito longe na literatura com
o sistema "viajamos e vimos muito", onde o autor primeiro faz as
coisas e em seguida relata. o narcisismo dos autores é odioso porque não
pode haver narcisismo de uma sombra. então a entrevista acabou.
o que é grave, não é atravessar o deserto, tendo a idade e a paciência
para isto; grave é para os jovens escritores que nascem no deserto,
porque correm o risco de verem sua empreitada anulada antes mesmo que
aconteça. e, no entanto, é impossível que não nasça
a nova raça de escritores que já estão aí para os trabalhos e os
estilos.