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Capítulo
3 |
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Ética no cotidiano de uma epidemia A.I.D.S.: A Epidemia no Mundo Securitário
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transparente" Carlos Drummond de Andrade
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O foco da investigação permanece colocado sobre o fenômeno epidêmico. Busca-se, agora, a sua caracterização enquanto uma experiência da vida coletiva, sempre a exigir uma soluço para a complexa relação entre o individual e o coletivo. Nessa caracterização, colhe-se, de fato, diversas evidências de que essa experiência desempenha um papel decisivo no equacionamento historicamente dado para aquela complexa relação. Em outras palavras, identifica-se uma relativa centralidade dessa "experiência do mal" na constituição dos modos históricos de se conceber o problema do bem e do mal e, ao mesmo tempo, de se dar uma solução na prática para o problema da responsabilidade e da liberdade individuais. Trata-se, portanto, de examinar o alcance ético das re-ações suscitadas, entre os modernos, pela experiência epidêmica, sendo que, o que permite e mesmo exige, com toda veemência, essa explicitação do problema ético que envolve a experiência da epidemia, é a presença do elemento contágio. É que este releva, de imediato, o problema do outro como a origem do mal. A questão não é tanto estar demonstrando algum tipo de determinismo nas relações entre a experiência epidêmica e a dimensão ética das práticas, quanto buscar identificar de que forma essa experiência da vida coletiva participa do movimento de afirmação de determinadas concepções e práticas de cunho marcadamente individualista. Ora, não há originalidade alguma nesse empreendimento. O que se pretende apenas é estar, a partir daí, explorando um veio interpretativo que possa ser capaz de se sustentar diante de problemas atuais, como é o caso da epidemia de A.I.D.S.. Em linhas gerais, verifica-se que o elemento contágio instaura um "convívio delicado" entre os indivíduos e participa, assim, da gênese de "uma individualidade que sobrevive apesar do social"; participa da gênese de uma concepção estratégica do viver fundamentalmente pautada no medo de (se) contagiar. O medo do contato desconhecido produz um "nó de reações psíquicas" (que, segundo Elias Canetti, estariam essencialmente ligadas à questão da sobrevivência, considerada, por esse autor, o elemento central na constituição do poder), que dita a nossa "maneira de evoluirmos nas ruas". O fundamento operativo dessa "estratégia de sobrevivência" acaba por se condensar em torno da noção de risco. Nesse sentido, pode-se dizer que essa noção nasceria de um otimismo, essencialmente individualista, em relação às chances de, através de uma gestão calculada do perigo (isto é, das fontes possíveis de mal), conseguir sobreviver aos outros. |
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| O Contágio como questão moral | |
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A história das epidemias está ligada a uma história do mal e do medo. Liga-se também à história dos meios desenvolvidos para se enfrentar essa e outras ameaças. Nesse particular, pode-se dizer que a história das epidemias está vinculada à história das práticas religiosas e das práticas medicosanitárias que, sucessivamente, legitimaram suas jurisprudências sobre o mal, na sua forma de dor, sofrimento físico e espiritual, incapacidade e morte. O que parece interessante nesse resgate da experiência epidêmica sob uma perspectiva da evolução dos medos (ou, redundantemente, a partir de uma história do mal), é a sua possibilidade de vir a se articular logicamente com uma discussão sistemática mais ampla dos conteúdos éticos das re-ações efetivamente suscitadas para o seu enfrentamento. Se a doença, com seu espectro de morte, constitui por si só uma forma privilegiada de manifestação do Mal na nossa cultura, a sua ocorrência na forma de epidemia traz consigo ainda outros aspectos "tenebrosos": o Mal manifesta-se sobre coletividades, agudizando a delicada relação entre os indivíduos e o grupo; o elemento contágio explicita a dualidade teológico-filosófica do Mal, que discrimina o mal sofrido (do qual se é vítima) do mal cometido (do qual se é culpado). Na doença não-contagiosa há sempre a possibilidade de se justificar o mal sofrido como decorrente de um pecado (mal cometido) contra Deus, sendo a doença, nesse ponto de vista, entendida como uma punição divina. Há também a possibilidade de se ver na doença o próprio pecado, um "pecado" de Natureza (p.ex., erro genético), o que leva a uma indistinção entre o mal sofrido e cometido, a um desaparecimento do mal moral, que foi absorvido pela Natureza. A doença contagiosa, ao contrário, reativa plenamente as duas categorias do Mal: é sofrimento, sofrimento que se alastra sobre muitos; é sofrimento que vem do outro, tem sua origem nessa "relação delicada" com o outro; coloca em jogo a liberdade de cada um e a sua responsabilidade com o outro, com o grupo; envolve sofrimento, mas também envolve "crime"... |
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| Epidemia e Individualismo | |
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Essa correlação já pode ser considerada clássica, mas sem dúvida o tratamento mais sutil é encontrado em Elias Canetti que mostra como podemos passar por essa questão ao discutir o elemento do contágio:
Canetti ressalta como o contágio reforça as figuras da distância, do afastamento, do isolamento e de uma individualidade que sobrevive apesar do social. Tais afirmações parecem ser corroboradas pelos estudos de Norbert Elias, que identifica o mesmo tipo de movimento nas transformações sofridas nos últimos séculos pelas normas de conduta e convívio social:
Mais próximo da nossa temática específica, Johan Goudsblom afirma que a experiência epidêmica reforçou aquilo que Elias chamou de "pressão social por mais autocontrole", e que corresponde a uma outra face do mesmo movimento individualizante, uma vez que o medo de se contaminar tem sua contrapartida no medo de contaminar o outro, estabelecendo uma forma de convívio delicado e um tanto quanto tenso. No mesmo sentido, em um diálogo entre Tarou e Rieux, ambos sitiados pela peste em Oran, cidade da Argélia:
Na literatura disponível, pode-se encontrar ainda alguns outros estudos que associam a experiência histórica das epidemias à geração de padrões de comportamento social de cunho individualizante, comportamentos esses que estão fundamentalmente baseados em determinadas atitudes frente à iminência do contágio ou, mais especificamente ainda, numa concepção estratégica do viver que passa a se pautar fundamentalmente pelo risco de (se) contagiar. Por ora, basta salientar que tudo isso parece ter fornecido um suporte imaginário fundamental para que se forjassem determinadas concepções sobre a segurança e o perigo, que acabarão por se refletir nas formas de relacionamento dos homens entre si e com as coisas. |
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| Securitarismo | |
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Nessas primeiras observações a respeito do movimento individualizante engendrado (ou reforçado) pela experiência histórica das epidemias, destaca-se o fato de estarem fundamentalmente referidas a um plano que poderíamos chamar de "psicológico". Todas as afirmações estão centradas em determinados sentimentos - como a "esperança de sobreviver" e o "medo de se contagiar", ou ainda, um "muro invisível de afetos" se interpondo entre as "individualidades sobreviventes" -, de tal forma que o social aparece apenas como contingência externa na geração de novos comportamentos, não permitindo a sua apreensão de maneira mais substantiva. Feito esse reparo, não é preciso que se saia em busca de um "social propriamente dito" - segundo determinadas concepções feudais, tributárias do positivismo, a respeito da divisão do campo do saber -, pois talvez ainda possa ser útil mergulhar um pouco mais nessa dimensão "psicológica" do problema, que, ao menos no caso desse objeto específico, parece fornecer elementos fundamentais para se alcançar alguma coisa de essencial em sua socialidade. Por ora, nos deteremos apenas em mais duas contribuições, que se mostraram bastantes sugestivas nesse sentido. Uma primeira encontrada na leitura de Elias Canetti e que corresponderia à visão mais geral que subjaz às suas colocações, já referidas, sobre o papel do elemento contágio nas epidemias. Trata-se da sua discussão sobre a fobia do contato. Esse autor, embora mantenha posições muito críticas em relação à psicanálise, como esta última, também se preocupa centralmente com aquelas experiências que estariam ocultadas dos homens pelas convenções sociais. Na presente obra, segundo seu próprio comentário, o tema principal é a questão da sobrevivência, enquanto uma experiência humana que se encontra encoberta "pelo que se deve sentir quando se experimenta a morte de outro ser humano". Assim, começa dizendo, a respeito da fobia do contato:
Canetti, ao falar no medo do contato desconhecido, intenciona apenas estar introduzindo a sua discussão sobre a sobrevivência e as complexas relações que fazem dessa questão, segundo seu enfoque singular, um "germe absolutamente essencial do poder". Neste momento, contudo, gostaríamos de aproximar essa sua descrição intuitiva e minuciosa do "nó de reações psíquicas" que passa a ditar a "maneira de evoluirmos nas ruas", de uma outra contribuição teórica ao nosso problema, que foi encontrada exatamente na psicanálise. É essa forma de conhecimento, afinal, que busca dar conta dessa "alguma coisa muito profunda... que não abandona o homem desde que ele fixou os limites da sua pessoa". Num artigo de Jurandir Freire Costa, encontramos essa questão trabalhada pelo viés psicanalítico diretamente no plano da cultura. Com excepcional clareza, e o auxílio de seu referencial teórico, resgata a questão da individualidade no quadro concreto de uma "cultura de sobrevivência":
Os enfoques acima sugeridos pretendem situar melhor o papel das dimensões psicológicas no individualismo suscitado pela experiência epidêmica, ao enfatizarem o papel de um medo genérico diante do desconhecido, de um medo do contato que parte da incerteza permanente de que esse contato possa vir a ser uma agressão - como o seria no caso de um contágio infeccioso -, o que levaria a maior parte das pessoas a adotarem um comportamento defensivo. Mais ainda, pretendem situar esse comportamento geral no quadro particular de uma cultura que explora ao máximo esse sentimento de impotência/desamparo e que, como não poderia deixar de ser, é campo dos mais férteis para todos os tipos de salvacionismos e securitarismos. Pânico narcísico! ...diante das imagens do vírus, dos aditivos químicos, dos poluentes, da radioatividade, do terrorismo, dos "árabes", da guerra, dos seqüestros, do colesterol, do acidente de trânsito, da inflação, dos terremotos, do crime... O editorial do JAMA (Journal of the American Medical Association) de junho de 1985 intitula-se The Age of AIDS: A Great Time for Defensive Living. Propõe a mudança nos estilos de vida individuais como o único meio para se deter a epidemia, mas acrescenta que as chances de ocorrerem tais mudanças, "dada a nossa sociedade livre e seus estímulos sexuais", são praticamente nulas. Acrescenta:
Para Baudrillard...
A epidemia de A.I.D.S. visita um social extremamente precavido contra seus efeitos maléficos, armado até os dentes de poderosos agentes profiláticos e terapêuticos, que não permitem que sua repercussão imaginária possa ser comparada àquela surtida por outras epidemias ao longo da história humana. É inegável que ao lado do medo de se contrair a A.I.D.S., o homem contemporâneo desfruta de um certo sentimento de segurança que parte do conhecimento de que já se dispõe para o enfrentamento do problema e, sobretudo, da verdadeira fé religiosa que deposita no avanço da tecnologia médica, que persiste acenando com uma possibilidade da cura.
O securitarismo começa com o fim do "vínculo social direto", com o fim das formas de solidariedade social, e com o desencadeamento da disputa de posições bem definidas, à medida que as "instâncias irradiadoras" encontram-se bem definidas. A partir do momento em que essas instâncias, elas mesmas, pulverizam-se, assumindo formas circuláveis (como mercadorias), a disputa de posições torna-se cada vez mais a disputa por uma posição sem referências palpáveis, sem tangibilidade extra-subjetiva. Talvez, por isso, se possa dizer que, se o securitarismo começa com o fim das formas de "vínculo direto", no fundo, ele gesta o fim de todo "vínculo" - possibilidade apenas virtual, ela significa essa aspiração secreta do indivíduo por uma redenção definitiva num mundo "mais-que-real", mundo "hiperreal", da "hiperseguridade". Todo ideal de liberdade confunde-se, em nossa cultura "hiperliberal", com esse ideal de libertar-se do outro que é, por sua vez, inseparável do ideal de libertar-se da morte. Uma visão mais superficial dessa limitação à liberdade imposta pela A.I.D.S. na esfera das trocas sexuais, pode obscurecer estas dimensões. É preciso aprofundar a compreensão do sentido dessa liberdade, que se define pela liberdade de "trocas" e que, no limite, faz do próprio corpo uma espécie de vírus que circula sem sentido. Essa liberdade segredaria, assim, um impulso irreprimível de libertar-se dos sentidos, dos sentimentos envolvidos nas trocas, de libertar-se dos abismos sentimentais do outro, do lado sombrio da sexualidade, e tudo isso em nome de uma "materialidade" das sensações, de uma sensualidade frívola, que vem integrar um certo ideal "performático" do corpo. |
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| Variações sobre o Risco | |
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Falar sobre o risco, correndo o risco de designar erroneamente aquilo de que se pretende falar. Conceito provisório, mas sem dúvida no centro, ou ao menos no princípio, das questões intuídas. Reduzindo os riscos de estar errado, diria que tais questões referem-se ao desconhecido. Avivam as imagens do jogo, da aposta, da aventura. Realçam as dualidades dúvida/certeza, segurança/perigo. Despertam paixões opostas como a esperança e o medo. A consciência prática moderna aguarda com ansiedade a decifração do código genético humano ainda antes do final do milênio, esperando com isso poder obter o controle supremo sobre o destino dos homens. A imagem em questão é a da "roleta da vida" ou "roda da fortuna" e esse avanço da ciência promete resposta para uma de suas questões mais aflitivas: do que vamos adoecer? Que potência de morte encontra-se silente, inscrita no meu particular genótipo, aguardando a oportunidade ambiental de adquirir expressão fenotípica? É possível prever as repercussões extraordinárias de uma tal descoberta em termos da reformulação do saber instrumental sobre o risco, no âmbito das práticas de saúde. Não me interessa, em princípio, qualquer idéia de risco que se pretenda científica e objetiva. Inspirado em Canguilhem, quando esse discute o "caráter biologicamente técnico e subjetivo e não biologicamente científico e objetivo" das definições de saúde e doença, postulo que a noção de risco não pode a priori ser definida objetivamente por nenhuma espécie de ciência. Antes disso, ela sempre foi uma noção importada da vida, já que é na vida que se coloca a primeira de todas as questões nesse campo: risco do quê? Postulo igualmente (e é bom lembrar que "postular" tem a mesma raiz etimológica que "apostar"), que a resposta a essa pergunta depende essencialmente das condições concretas de existência da vida humana, e por isso mesmo jamais será uma resposta dada de uma vez por todas pela "vida". Essa resposta requer, portanto, uma contextualização histórica e social.
Cabanis, citado por Foucault, fala dos "novos medos" que surgem num contexto de vida urbano, em finais do século XVIII:
Cada um por si, que o risco é para todos!
A pobreza como risco e o risco da pobreza... No século XIX, ganha espaço nas representações sociais um certo medo da pobreza, cuja ambigüidade é sugestiva. Nas novas condições dadas pela sociedade urbana e industrial, em que ricos e pobres convivem num mesmo espaço, cada vez mais próximos, cada vez mais a condição da pobreza se vê ligada às imagens (porque antes disso se vê ligada à realidade) da fome, da doença e de todas as formas de degradação física e moral. A pobreza fede e onde há mau odor, há perigo! Não há dúvida, a pobreza é um risco fatal... Em torno desse foco potencial de morte, que pode ser captado pelos sentidos, reconhecemos um desdobramento da percepção social do risco, ainda que relacionada a uma mesma representação social da pobreza, que decorre essencialmente da situação social de classe: para o trabalhador proletário, a pobreza é risco permanentemente colocado sob a ameaça de recrudescer nas formas da miséria (perda do emprego, acidente e invalidez, dissolução da família ou seu aumento indesejável, doença, velhice, morte etc. - que aliás são todas questões que, mais cedo ou mais tarde, acabarão por se tornar alvo de políticas sociais de saúde e seguridade); para o burguês proprietário de um sólido patrimônio (aquele que tem menos chances de "acabar na miséria"), a pobreza é um risco tanto quanto pode ser um mangue pútrido emanador de miasmas. Afinal, a pobreza fede e onde há mau odor... A esse último tipo de risco, procurará dar respostas a Higiêne Pública, saneando e circunscrevendo os locais de pobreza. A esse respeito, é interessante notar que, contrariamente às concepções correntes do senso comum, é a Saúde Pública - a "medicina dos pobres" - que principalmente oferece as respostas para os "riscos dos ricos", enquanto que foi a Medicina Previdenciária - baseada no modelo fornecido pela "medicina dos ricos" - que fornece as principais armas de defesa contra os "riscos dos pobres". Daí, quem sabe, uma outra possibilidade de enfocar a histórica série de revoltas populares que a ação da primeira suscitou, sobretudo nos seus primórdios, e a forte adesão reivindicatória das classes populares aos meios de ação da segunda, sobretudo nas fases mais recentes da evolução das sociedades capitalistas. |
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| Ética no cotidiano de uma epidemia | |
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Não somos, aos nossos próprios olhos, cidadãos, mas tendemos a nos ver antes como trabalhadores e indivíduos. Sendo o trabalho, a eficácia e o progresso tecnocientífico, os verdadeiros valores da sociedade moderna, faz sentido que o status fundamental não seja o jurídico, mas o de produtor e, cada vez mais, o de consumidor. Esse parece o destino das sociedades transnacionais compostas de membros anônimos e intercambiáveis. Os direitos e deveres de cidadania não constituem o principal da vida cotidiana dos indivíduos. É em suas práticas de vida concretas que podemos descobrir o "subsolo moral", que fornece o sentido atual das noções de liberdade individual, interesse comum, vontade de todos e vontade geral, comunidade política, contrato social etc. O gozo das liberdades fundamentais permite ao indivíduo levar a sua vida como bem entenda, e não acarreta necessariamente o exercício de nenhuma responsabilidade pública. Os assuntos públicos são delegados aos "profissionais" da política e, assim, o Estado Moderno, se não cede vez completamente ao complexo social-industrial é porque permanece sendo a fonte de toda autoridade, legitimada pela garantia dos direitos individuais. Em troca dessa relativa autonomia de um Estado "profissionalizado", garante-se ao indivíduo o gozo de uma vida pessoal e, nesse sentido, puramente privada. Ainda é possível se falar em contrato social, nessas condições? Quais seriam suas novas cláusulas? Se é verdade que, por hedonismo, a vontade individual inclina-se naturalmente para o Bem, a liberdade individual fica comprometida diante da invisibilidade do Mal, assim como a responsabilidade com a coisa pública, conforme enfatizava Rousseau, também fica comprometida com a invisibilidade do Bem (comum). A liberdade de colocar-se a serviço da vontade geral, agindo em conformidade com suas ordens, respalda-se na visibilidade do bem comum, que faz, racionalmente, da vontade individual e geral uma mesma e única vontade. A invisibilidade do Mal restringe o espectro de liberdades, pois retira do indivíduo a possibilidade de "julgar por si", em cada situação, e estar seguro de haver escolhido o Bem. Só resta a possibilidade de assumir um "comportamento de sobrevivência" e a esperança de recuperação da liberdade, devidamente modificada, sob a forma de "próteses" tecnológicas. Por outro lado, como já foi assinalado, é a liberdade que acua a responsabilidade de cada sujeito em relação aos outros, quando esta se coloca, igualmente, por uma situação de invisibilidade do Mal. Tem-se o direito de contaminar (tanto quanto o de se contaminar); por isso, às vítimas potenciais, só resta prevenir-se... Nesse contexto, não estaríamos autorizados a considerar que qualquer idéia de liberdade plena dos indivíduos só pode ser temerária ou criminosa? E a virtude, não seria, cada vez mais, essa responsabilidade última, mínima, securitária, voltada sobre si mesma? |
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| A.I.D.S.: A Epidemia no Mundo Securitário | |
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O ponto para onde caminham todas essas análises, como não poderia deixar de ser, corresponde ao ponto onde as primeiras questões foram colocadas: a epidemia de AIDS. E é nesse ponto que as questões são recolocadas: AIDS, uma epidemia visita um social "securitário"... Há uma evidência difícil de ser ignorada: o medo da AIDS, desde um primeiro momento, aparece modulado por uma espécie de medo à energia negativa do medo que, longe de ser uma mera negação, parece sustentar-se numa confiança bastante irrestrita no progresso tecnocientífico e na sua capacidade de fornecer os meios necessários para o enfrentamento do Mal, sob todas as suas formas (ou quase todas...). Há medo, mas há também a convicção íntima de podermos sobreviver à epidemia. Essa ênfase na dimensão tecnológica e científica não deve obscurecer as implicações ético-culturais do problema mas, pelo contrário, iluminá-las de forma ainda mais penetrante. Podemos, sumariamente, colocar o problema da sobrevivência à epidemia de AIDS em três níveis: 1º não contrair 2º não adoecer 3º não morrer Se levarmos em consideração a participação no total de recursos destinados à pesquisa, o espaço ocupado nos meios de comunicação de massa e, sobretudo, a expectativa comum dos indivíduos, apreensível nos discursos do cotidiano, podemos dizer que a maior esperança de sobreviver está depositada no terceiro nível, aquele da "solidão comum face à morte", onde se arriscam todas as fichas na busca da cura. O segundo nível não escapa às determinações individualistas e remete às medidas de autocuidado, ao uso de drogas específicas (como o AZT) e ao controle de cofatores agindo sobre o indivíduo (outras infecções virais, p.ex.). Todas as contradições inerentes a esse modo de se colocar diante de um processo epidêmico, incluindo seus dilemas éticos, parecem adquirir toda a sua dramaticidade no primeiro nível, onde o que volta à cena é o elemento contágio. Em primeiro lugar, temos a liberdade individual (principalmente a liberdade de contatos sexuais - o que atinge o cerne dos processos de "liberação" contemporâneos...) limitada pela invisibilidade do Mal, pela falta de garantias da "pureza" do outro, e por essa extremada responsabilidade consigo mesmo. Por outro lado, para aquele que potencialmente ou seguramente pode veicular o Mal, temos o problema da responsabilidade individual, que encontra-se duplamente limitada por "direitos fundamentais": a liberdade dos indivíduos de obterem e reservarem para si as informações ditas privadas (como é o caso das informações de saúde individual) e, o que é mais importante, a liberdade realmente inalienável de decidirem, intimamente, sobre a adoço ou não de uma atitude responsável em relação ao outro. É nessa era de extremada responsabilidade apenas consigo mesmo é que adquire todo sentido a velha máxima do Direito Civil evocada por Rousseau:
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( introdução capítulo 1 capítulo 2 capítulo 3 bibliografia )
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